dezembro 2024 - Fusão

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O Natal: entre o bacalhau e a tia do “E namorados?”

dezembro 20, 2024 0
O Natal: entre o bacalhau e a tia do “E namorados?”

 







Mais um Natal, mais um “Sozinho em Casa”, este clássico que não sai de moda. Todos os anos, vemo-nos no meio do caos natalício, onde a cozinha vira um verdadeiro teatro de operações, entre broas de mel, filhós e rabanadas. E, apesar de já ter 23 anos, a tradição de me deixarem com as partes mais fáceis nunca morre. Há também o imprescindível momento em que alguém decide vestir-se de Pai Natal, mas acaba desvelado, geralmente, porque faz demasiada questão de ser descoberto numa verdadeira caça auto-instigada.

Já eu? Sempre fui mansa. Nunca corri atrás do “alegado” Pai Natal, com medo de que, se o apanhasse, ele não voltasse no próximo ano. Acreditei nele até ao 5º ano, e foi nessa altura que os meus pais, num ato de "compaixão", acharam por bem revelar a verdade. Foi também nessa altura que a lista de presentes começou a mudar. Hoje, o pedido mais frequente é: “Prefiro dinheiro, obrigada!”. Por um lado, adoro a sinceridade – quem não gosta de algo prático? Por outro, sinto que se perde um pouco da magia de dar aquela prenda única, que tem um significado especial, algo pensado especificamente para a pessoa.

O jantar do dia 24 é, sem dúvida, o auge do Natal. A mesa brilha, mais caprichada do que em qualquer outra altura do ano. Só o Natal nos faz sofrer com síndrome do túnel do carpo de tanto criar origamis de árvores para a mesa e deixar tudo perfeito. E claro, ninguém resiste a tirar um “storyzinho” para o Instagram, afinal, trabalhámos tanto para quê? O ambiente aquece, o bacalhau ou o peru aparecem, mas pouco se fala sobre a correria que foi preparar tudo: começamos o dia apressados e terminamos exaustos. No entanto, o esforço vale sempre a pena.

Infelizmente, o Natal não é só glamour. É também o palco de conversas que nem sempre são desejadas, porque, convenhamos, nenhuma família é perfeita. Há sempre quem pergunte: “Então, já arrumaste um bom partido?” – e, se a resposta for negativa, emenda com um “Mas nem um que seja mais ou menos?” Há também os comentários passivo-agressivos do género: “Não exageres no prato” – o que soa a preocupação, mas, na verdade, é uma crítica mascarada de conselho. E, inevitavelmente, surgem discussões políticas com opiniões que podem deixar o ambiente um pouco menos descontraído. É cansativo…, mas que se lixe. Porque prefiro mil vezes alguém a mandar as suas postas de pescada enquanto dividimos o bacalhau, do que imaginar essa pessoa longe de mim. E penso naqueles que passam o Natal sozinhos: num hospital, num lar, ou em silêncio na própria casa. É nestes momentos que percebo que, entre críticas disfarçadas de comentários “bem-intencionados” e o clássico “Estás mais cheinha este ano”, ainda há calor, vida e amor. E nada se compara a isso.

Também penso nos familiares que já não estão entre nós, e a ausência pesa, mas também é uma oportunidade de os recordar. E, acima de tudo, é uma chance de valorizar quem ainda está aqui. A vida é demasiado breve para não abraçarmos quem amamos, mesmo com as suas falhas. Porque, no fundo, é isso que torna o Natal especial: não a perfeição, mas a verdade que ele carrega.

Entre perguntas indesejadas, piadas repetidas e momentos caóticos, encontramos um amor que se manifesta nas imperfeições. E, por muito imperfeito que seja, não trocaria este Natal por nada no mundo.

A todos, um Feliz Natal repleto de todos os clichês que amamos e, claro, sem ninguém a perguntar “E aquele namorado?”.



Autora:  Inês Lima


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Mas, afinal, porque é que todos querem ser influencers?

dezembro 16, 2024 0
Mas, afinal, porque é que todos querem ser influencers?

 


Nos dias que correm tem-se ouvido cada vez mais o “Sabes o que eu quero ser quando crescer? Influencer!". Pois é, agora o sonho é viver com câmaras, ring lights e muitos seguidores no Instagram.
Mas, afinal, o que é um influencer e de onde é que tal espécie surgiu? A verdade é que a história do marketing de influência remonta a tempos muito anteriores ao surgimento da internet. A capacidade de influenciar data desde os primórdios, passando por líderes políticos, líderes religiosos, cientistas, filósofos, que moldaram sociedades com ideias, valores e descobertas. Mas como é que (des)evoluímos e começámos a ser influenciados por caras bonitas e cabeças vazias?  
No início do século XX, o marketing era dominado pela publicidade massiva, com anúncios em jornais, revistas, rádio e TV, num modelo de comunicação unidirecional. Nas décadas de 1980 e 1990, o marketing começou a evoluir para uma abordagem mais relacional. A comunicação tornou-se mais segmentada e as campanhas procuravam o chamado “engajamento emocional”. Esses princípios começaram a ganhar força com a chegada da internet: com o advento do marketing digital nos anos 2000 e a popularização das redes sociais, como o MySpace, o Facebook e o YouTube, as marcas passaram a interagir diretamente com os consumidores. Essa comunicação bidirecional abriu espaço para os primeiros criadores de conteúdo, que, de maneira informal, começaram a influenciar as perceções e decisões de consumo.
A ascensão dos influencers foi consolidada nos anos 2010, com plataformas como o Instagram, o YouTube e, mais tarde, o TikTok. Assim, o marketing de influência surgiu como uma estratégia central, substituindo o uso de celebridades distantes por “pessoas comuns”, com suposta autoridade ou carisma. Esse modelo pretendia humanizar a comunicação das marcas, focando na confiança e na autenticidade. Desde então, o marketing de influência tornou-se estratégico, apoiado em análises de dados, segmentação de público e conteúdo criativo. Influencers passaram a atuar como intermediários diretos entre marcas e consumidores, ajudando a construir conexões mais próximas e personalizadas.
Mas será que esta tentativa de humanizar, de facto, humanizou? Hoje, o marketing de influência é um dos pilares do marketing digital. Ele reflete a transição de um modelo centrado na marca, para um modelo centrado no consumidor, onde autenticidade, microssegmentação e engagement são fundamentais - por forma a atingir o objetivo final e desde sempre central: levar o consumidor a ser isso mesmo - consumidor, gastador. 
Talvez um influencer seja aquele que cria conteúdo, ou que partilha experiências únicas, que conecta as pessoas... bem, até pode ser verdade! Mas não é só isso que o define, se não o Fusão também seria um. Influencers são hoje um grupo diversificado, que vai desde quem nos inspira com arte ou projetos sociais até àquele que te elucida com os “5 produtos que mudaram a minha pele." O influenciar é um espetro, do aspiracional ao absolutamente nonsense.
E porque é que todos querem ser um? Talvez porque seja um trabalho que não parece trabalho. Porque a sua vida é romantizada de uma forma absurda nas redes sociais. Quem não gostaria de passar o dia a gravar vídeos e a receber presentes de marcas? É o sonho perfeito, não é? Zero chefes, zero responsabilidades (ou pelo menos parece); é a receita do sucesso. Ser influencer permite trabalhar de forma criativa, em horários flexíveis e com a promessa de autonomia financeira, algo que contrasta com os empregos tradicionais. Será?
Para além disso, vivemos numa sociedade esfomeada por validação e um sentimento de pertença. As redes sociais são um espaço onde os jovens crescem expostos a métricas de popularidade como likes, comentários e seguidores. Tornar-se influencer é visto como uma maneira de alcançar relevância social, num nicho que valida as suas opiniões, estilo de vida ou talentos. Adicionalmente, o mundo digital oferece um ambiente onde barreiras tradicionais, como localização geográfica ou formação académica, são menos importantes, criando a sensação de que qualquer pessoa pode se tornar influencer, desde que seja autêntica, criativa e consiga cativar um público.
Mas calma, não estamos só a criticar! Há influencers que realmente fazem a diferença. São aqueles que nos fazem rir depois de um mau dia, que nos inspiram a fazer algo novo, ou que nos apresentam algo que nunca considerámos antes. O que criticamos é algo diferente.
A crítica recai em nós, o fiel público? “Comemos tudo”, porque gostamos de ser parte disso. Queremos acreditar que aquela viagem foi mesmo perfeita, que a rotina daquela pessoa é mesmo cheia de cafés, de lugares bonitos e que o novo creme vai fazer milagres na nossa pele. E talvez seja isso que alimenta o desejo de todos quererem ser influencers: a ilusão de que eles têm uma vida perfeita – aquela vida que, sejamos honestos, não vamos ter. No fundo, é fácil esquecer que até as fotos mais deslumbrantes escondem filtros, edições e, quem sabe, umas boas dívidas no cartão de crédito. Atrás de tantos sorrisos e paisagens perfeitas, muitas vezes há problemas, mal-estar e tristeza, que são escondidos por um feed estético e impecável.
Não sejamos hipócritas, nós também consumimos, também clicamos e, às vezes, também tentamos aquela receita de panquecas "fácil e rápida" que leva 42 ingredientes e um elefante. E sabem o mais irónico? Também queremos ser influencers. Sim, também queremos compartilhar momentos e, quem sabe, fazer uma dancinha no TikTok… não, calma, isso já é demais. Não nos iremos submeter a esse tipo de coreografias (pelo menos é o que dizemos agora, mas quem sabe se no TikTok do Fusão iremos cair na tentação). Porque o sonho de ser influencer talvez seja menos sobre influenciar os outros, e mais sobre querer ser visto, ouvido e, principalmente, lembrado.
Esta procura desenfreada de tantos jovens para se tornarem influencers reflete uma sociedade com um sistemas de valores distorcido, centrado na fama, validação e consumo ostensivo. Precisamos mesmo de tanto? Muitos jovens fascinados pela superficialidade das redes sociais, atraídos pela ilusão de uma vida perfeita, nem têm sentido crítico que lhes permita considerar o trabalho real e as incertezas que existem por detrás do sucesso digital. Além disso, a idealização dessa carreira ignora as consequências psicológicas de viver sob constante escrutínio público. Muitos influencers relatam ansiedade, esgotamento e até crises de identidade, questões ocultadas pelo brilho do post perfeito. 
Então, para responder à pergunta: porque é que todos querem ser influencers? Talvez porque todos querem ser importantes. E se, pelo caminho, der para ganhar uns produtos de skincare, por que não? Não queremos criticar o sonho de ninguém. Se querem mesmo ser influencers, por que não? Mas se o tentarem, não se esqueçam que têm em vocês sentido crítico que deve ser usado, não deixem de viver o presente, não negligenciem relações autênticas e percam oportunidades de aproveitar o tempo de forma significativa. Não se esqueçam que somos seres sociais e relacionais e que a vida mais bonita é mesmo a que se vive no presente.

Autoras: Inês Lima e Maria Monteiro

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Portugal é um país racista?

dezembro 11, 2024 0
Portugal é um país racista?

 

O século XXI é muito engraçado. É uma época de descobertas, de tecnologia e de avanços exponenciais. Os direitos humanos entram na ordem do dia e a globalização é cada vez mais uma realidade. É um tempo onde todos podemos ser o que quisermos e onde quisermos. Ou pelo menos devia ser. No entanto, como toda a evolução tem os seus negacionistas, também o século XXI tem os seus. Há sempre alguém que fica preso no passado, por algum motivo que por vezes é difícil explicar.

Os últimos séculos abraçaram, mais do que nunca, a multiculturalidade. Na Europa surgem as tão famosas Chinatowns, bairros de cultura, onde se é possível experienciar a vivência de um país diferente do nosso sem sair do mesmo. Contudo, em Portugal, a moda da Chinatown não pegou. Mas qual será o motivo para isso? Até somos um país simpático. Será que nós não somos suficientemente atraentes para os imigrantes se quererem fixar no nosso país, ou será que somos nós que não damos abertura para tal? Seremos nós… Ra… Racistas? Não pode. Recuso-me a acreditar que um povo tão acolhedor como o português possa ser apelidado de racista. 

A verdade é que o racismo estrutural não é apenas uma realidade distante, restrita a países recentemente associados à segregação explícita, como os Estados Unidos ou o Brasil. Em Portugal, embora menos evidente para muitos, ainda existem muitas almas que se acreditam superiores, refletindo-se nas desigualdades enfrentadas por pessoas racializadas, como pela comunidade negra, muçulmana, cigana e indiana. Ou será que todos os portugueses de bem adoram negros, muçulmanos, ciganos e indianos? 

Nos últimos meses muito se tem falado precisamente desta última comunidade: os indianos. Surgem movimentos de reconquista cristã e chora-se no TikTok porque “não sou racista, só tinha medo dos indianos à noite no Martim Moniz”. Fazem-se vídeos a mostrar as filas para templos religiosos não cristãos, enquanto se grava a cara de pessoas que só querem cumprir a sua devoção, afirmando que elas são perigosas. Plot twist: em nenhum destes movimentos de ódio existiram crimes “perigosos” praticados por pessoas “não portuguesas”.

A verdade é que não podemos ignorar que a  política portuguesa tem avançado timidamente na abordagem do racismo estrutural (ou pelo menos estava a avançar). No entanto, a aplicação prática dessas políticas é frequentemente limitada por resistências institucionais e pela falta de uma mudança cultural mais ampla. Além disso, os discursos de certos partidos de extrema-direita, que negam a existência do racismo e promovem ideias xenófobas, alimentam tensões e dificultam o progresso.

O combate ao racismo estrutural em Portugal exige um compromisso político e social robusto. Isto passa por iniciativas educativas que desconstroem estereótipos e valorizam a história e as contribuições das comunidades racializadas no país. 

Ninguém nega que alguns emigrantes ou membros de determinadas comunidades possam praticar crimes. A criminalidade existe e não deixa de parte pessoas pela sua origem, por isso talvez o combate de forma transversal à criminalidade devesse passar pela promoção de políticas de inclusão no mercado de trabalho e na habitação, encorajando mecanismos de fiscalização e punição contra práticas discriminatórias. Pensemos em conjunto: se eu fosse uma pessoa chateada com a minha vida, a procurar o melhor para os meus e a passar necessidades ao ponto de me ver obrigado a cometer ilegalidades, cometeria-as contra alguem... que me apoia ou contra alguém que me despreza? Parece-me uma escolha bastante óbvia. Talvez até procurasse ajuda junto de alguém que me apoia e nem precisasse de praticar um crime. Ou até talvez tivesse a estrutura necessária para não ter de pedir ajuda de todo, e simplesmente me integrasse como o cidadão que sou.

Portugal é um país que se orgulha da sua tradição democrática e da sua suposta convivência pacífica entre culturas, mas tem de  reconhecer que a igualdade racial ainda está longe de ser uma realidade. É preciso enfrentar o racismo estrutural de frente, com ações concretas e um debate honesto que vá além do superficial. Só assim será possível construir uma sociedade verdadeiramente justa e inclusiva, onde a cor da pele e a origem do ser deixe de ser um marcador de exclusão.

O século XXI é efetivamente muito engraçado. É uma época cheia de descobertas, de tecnologia, de avanços exponenciais e da globalização. É um tempo onde todos devíamos poder ser o que quiséssemos e onde quiséssemos, mas não é. Talvez um dia seja. Até lá, bastava cada um poder ser o que é.


P.S.: Na verdade, há sim uma ChinaTown em Portugal! Fica em Vila do Conde e é de lá de onde vêm os mil dupes que hoje existem nas lojas online #ficaAdica


Renato Martins