abril 2024 - Fusão

sábado, 27 de abril de 2024

50 anos chegaram, quantos mais virão?

abril 27, 2024 0
50 anos chegaram, quantos mais virão?

 

















Celebraram-se 50 anos do 25 de abril, mas podiam ser 42 ou 51 que o sentimento não deveria ser diferente; contudo, a condição humana sempre se sentiu atraída por formas redondas e perfeitas, então 50 soa e parece especial. Marco crucial na nossa história portuguesa, o 25 de abril traduz-se num sentido de identidade, sem o qual ninguém é verdadeiramente português. Abril é um símbolo - símbolo de luta pela liberdade, democracia, direitos humanos, valores que permanecem fundamentais, e se revelam cada vez mais, neste mundo atual, em constante transformação. É um símbolo de democracia, de uma revolução que no seu silêncio gritou mais alto.


 

Será necessário, então, continuarmos a falar deste marco histórico, tão transversal e duradouro? Será que não aprendemos todas as lições que tínhamos a aprender com o 25 de abril?

Num mundo em que, dia após dia, a liberdade de expressão e a democracia são constantemente desafiadas, os direitos fundamentais nunca devem ser tidos como garantidos, mas sim defendidos ativamente. Desta forma, a Revolução dos Cravos lembra-nos da importância de permanecer vigilantes. Somos apenas mais um, no panorama europeu, que gostamos tanto de ter como referência, onde a direita radical tem vindo a ganhar expressão. “Será que não aprendemos nada com o 25 de abril?”, perguntam os defensores da democracia. Vilanizar ideias ou partidos que tentam atacar a democracia parece a solução mais fácil, mas quem procura uma democracia séria e sã sabe que não é esta a solução. Será que esta onda crescente e assustadora não é um retrato de uma sociedade que procura refúgio e respostas que a democracia, que tanto adoramos e queremos proteger, não consegue dar?

 

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

Sophia de Mello Breyner

 

Em 1974 conseguiu-se uma revolução pacífica, com flores em vez de sangue e canções em vez de caos. Agora somos jovens com acesso à educação, somos homens que se podem expressar livremente, somos mulheres que podem votar, somos um povo com um legado. Mas somos, também, quem carrega o dever de preservar e honrar uma memória histórica e comum. Será que hoje podemos aprender algo com o 25 de abril? Será que não tomamos como dado adquirido a liberdade de expressão, o livre acesso a um sistema de saúde, a possibilidade de termos uma educação superior? Será que o 25 de abril não é uma incitação a todos que acreditamos que, para além de tudo já alcançado, podemos conseguir ainda mais? Que a mudança positiva é constantemente possível e que podemos construir um futuro ainda mais democrático, ainda mais justo? Compreender o significado desta revolução permite entender a dimensão dos desafios que temos pela frente, na defesa da desigualdade social, da discriminação racial e de género, na crise ambiental. Compreender a memória comum que carregamos nas costas impõe-nos a responsabilidade de não deitarmos tudo por terra e de continuarmos a trabalhar por uma democracia que tanto fez por nós.

 

Há 50 anos “habitamos a substância do tempo, emergimos da noite e do silêncio”. Há 50 anos somos mais livres, mais humanos. Nós somos, mas o mundo, maravilhoso e aterrador, parece ter dificuldade em acompanhar. Haverá espaço neste mundo, cada vez mais tecnológico, para canções e poemas? Haverá tempo neste mundo rápido de instantes e cliques, para dialogar e debater? Haverá oportunidade neste mundo conflituoso, tenso e caótico para pertencer, para sermos uma comunidade? Sabemos das conquistas, mascaramos o sofrimento para celebrar um sonho. Temos 20 anos e o que sabemos de abril nem perto está do que este verdadeiramente foi. Passaram-se 50 anos... É imperativo aprender com o 25 de abril para não precisarmos de ser revolucionários como antigamente.

 

Maria Monteiro

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Que nunca por vencidos se conheçam - Abril na Primeira Pessoa

abril 25, 2024 0
Que nunca por vencidos se conheçam - Abril na Primeira Pessoa


Em finais de 73, a partida de Spínola, comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, é envolta em rumores. No Ultramar, os soldados ouviam falar de planos para um golpe de estado na “metrópole”. A mudança está próxima e cresce a cada dia.

Aos 24 anos de idade, há muito tempo que o menino se fez homem.

Na alvorada da Revolução, a 21 de abril de 1974, o soldado vê a sua comissão na Guiné terminada. Regressa, de licença militar, a casa. Mas é curta a estadia.

Os Cravos encontram a boca das espingardas, é a revolução sem sangue! Ao soldado dizem-lhe “Não saias à rua! Eles matam-te!”, mas o soldado não tem medo. Já viu demasiado para temer. Fez-se o 25 de abril.

4 dias passam, e um telegrama chega a casa. Tem de se apresentar em Tancos. Para quê? Não sabe. Deixa a família mais uma vez, para servir a pátria.

Na viagem até lá, as caras conhecidas são muitas. Vai encontrando este camarada e aquele, vão-se reunindo e ao que vão? Perguntam-se eles, mas ninguém tem resposta.

O destino, ficam a saber, é a Portela. São destacados para fazer a proteção militar do aeroporto. Protegem-no por receio dos movimentos das forças revolucionárias que tentavam impedir o envio de mais “carne para canhão” para as colónias.

E o que pensam os soldados disto tudo? Quase nada. Um soldado serve, tem uma missão para cumprir e faz-se o que se tem a fazer. Todos eles já viram muito, já passaram muito, e a revolução ainda tem muita descrença, e está-lhe agarrada o sentimento de que tudo continuará a ser como era dantes.

No aeroporto, a ordem é para matar. Por isso, nada parece muito diferente. Ainda assim, é muito melhor que a guerra. Para quem esteve na Guiné, é quase uma brincadeira. Há tempo e espaço para conviver e para algum descanso para os soldados. Cumpriu-se. E foi assim, até 18 de julho de 1974.

Aí ficaram à “disponibilidade”, que é como quem diz, livres.

Livres para regressar. À vida. À família. À liberdade.

Ainda hoje, envolto em lágrimas antigas, mas sempre presentes (porque nem tudo o tempo cura, apenas ajuda a aceitar) reza-me a oração dos paraquedistas:

“Senhor, não te peço descanso, mas proteção…”


Relato na 1ª pessoa por João Martins, paraquedista na Guerra do Ultramar, na Guiné-Bissau. O meu avô.

Nota: “Que nunca por vencidos se conheçam” é o lema das Tropas Paraquedistas do Exército Português.


Mariana Ferreira