Que nunca por vencidos se conheçam - Abril na Primeira Pessoa - Fusão

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Que nunca por vencidos se conheçam - Abril na Primeira Pessoa


Em finais de 73, a partida de Spínola, comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, é envolta em rumores. No Ultramar, os soldados ouviam falar de planos para um golpe de estado na “metrópole”. A mudança está próxima e cresce a cada dia.

Aos 24 anos de idade, há muito tempo que o menino se fez homem.

Na alvorada da Revolução, a 21 de abril de 1974, o soldado vê a sua comissão na Guiné terminada. Regressa, de licença militar, a casa. Mas é curta a estadia.

Os Cravos encontram a boca das espingardas, é a revolução sem sangue! Ao soldado dizem-lhe “Não saias à rua! Eles matam-te!”, mas o soldado não tem medo. Já viu demasiado para temer. Fez-se o 25 de abril.

4 dias passam, e um telegrama chega a casa. Tem de se apresentar em Tancos. Para quê? Não sabe. Deixa a família mais uma vez, para servir a pátria.

Na viagem até lá, as caras conhecidas são muitas. Vai encontrando este camarada e aquele, vão-se reunindo e ao que vão? Perguntam-se eles, mas ninguém tem resposta.

O destino, ficam a saber, é a Portela. São destacados para fazer a proteção militar do aeroporto. Protegem-no por receio dos movimentos das forças revolucionárias que tentavam impedir o envio de mais “carne para canhão” para as colónias.

E o que pensam os soldados disto tudo? Quase nada. Um soldado serve, tem uma missão para cumprir e faz-se o que se tem a fazer. Todos eles já viram muito, já passaram muito, e a revolução ainda tem muita descrença, e está-lhe agarrada o sentimento de que tudo continuará a ser como era dantes.

No aeroporto, a ordem é para matar. Por isso, nada parece muito diferente. Ainda assim, é muito melhor que a guerra. Para quem esteve na Guiné, é quase uma brincadeira. Há tempo e espaço para conviver e para algum descanso para os soldados. Cumpriu-se. E foi assim, até 18 de julho de 1974.

Aí ficaram à “disponibilidade”, que é como quem diz, livres.

Livres para regressar. À vida. À família. À liberdade.

Ainda hoje, envolto em lágrimas antigas, mas sempre presentes (porque nem tudo o tempo cura, apenas ajuda a aceitar) reza-me a oração dos paraquedistas:

“Senhor, não te peço descanso, mas proteção…”


Relato na 1ª pessoa por João Martins, paraquedista na Guerra do Ultramar, na Guiné-Bissau. O meu avô.

Nota: “Que nunca por vencidos se conheçam” é o lema das Tropas Paraquedistas do Exército Português.


Mariana Ferreira 

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