Atualmente, vive-se uma crise no Sistema Nacional de Saúde. A falta de condições de trabalho, ausência de valorização das carreiras e salários precários, estão a provocar greves constantes dos médicos em Portugal. Porém, este descontentamento já se tem vindo a sentir desde há alguns anos, e muitos profissionais têm optado por abandonar o seu país, em busca de melhores condições de vida. Só no ano de 2019, chegaram à Ordem dos Médicos 386 pedidos de certificados para exercer no estrangeiro [1]. Os países mais procurados são o Reino Unido, Alemanha, Suíça e países nórdicos, onde são encontradas as propostas mais atrativas [1].
Stress, excesso de trabalho, falta de tempo para atender os utentes, sobrecarga da vida profissional em detrimento da vida pessoal, são também outros aspetos que provocam a saída dos médicos [2]. Além disso, o numerus clausus das faculdades de Medicina é muito superior ao número de vagas para a especialidade, o que aumenta o número de médicos indiferenciados e, consequentemente, a procura de emprego lá fora [1]. A distância da família e amigos, uma língua e cultura diferentes, são pontos a pesar na balança da emigração, mas que acabam por perder face aos melhores salários, valorização da profissão, qualidade e equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, que outros países oferecem [2].
Mas será ainda possível reverter esta tendência de emigração? Vejamos a opinião da Maria, estudante do 6º ano de medicina:
Estando na reta final do curso, começas já a planear o teu futuro como Médica. O que te atrai em Portugal para exercer esta profissão?
Apesar do SNS não estar a passar pela melhor fase, este tem uma qualidade muito boa de formação de internos e, consequentemente, gera bons especialistas. Para além disso, a família e os amigos são também um fator importante para ficar em Portugal.
O que poderá desencadear a tua ida para o estrangeiro?
Existem países que dão mais valor à profissão médica do que em Portugal, o que consequentemente leva a uma melhor qualidade de vida, uma vez que a carga horária não é tão pesada e a remuneração também é mais elevada face ao custo de vida. Adicionalmente, em Portugal a falta de recursos humanos, materiais e infraestruturas, é cada vez mais visível, o que dificulta a prática médica diária e aumenta o desgaste da profissão.
No teu seio de amigos e colegas de curso, consideras existir uma tendência para a progressão dos estudos (especialidade) fora de Portugal?
Não considero que exista uma maior tendência para ir para o estrangeiro, apesar de haver uma maior investigação e interesse por parte dos estudantes de medicina sobre todas as opções de internato que existem fora de Portugal. Esse interesse faz com que, cada vez mais, existam sessões nas escolas médicas nesse âmbito. O MedUBI costuma organizar todos os anos esta sessão, na qual recomendo vivamente que todos se inscrevam, de forma a tomarem uma decisão mais acertada para o seu futuro. Sei que os colegas que vão para o estrangeiro trabalhar vão porque a qualidade de vida é melhor e o trabalho deles é reconhecido, apreciado e melhor pago.
Que incentivos podiam existir para evitar a emigração dos jovens médicos portugueses?
Neste momento tem-se falado muito nas notícias e redes sociais sobre este tópico. Acho que o principal neste momento para os internos é limitar as horas extra, de modo a tentar conciliar vida profissional e pessoal e possibilitar melhorar a qualidade de vida dos internos. Adicionalmente, com a inflação económica, torna-se também importante valorizar os médicos do ponto de vista salarial que reflita os anos dedicados a estudar medicina, a responsabilidade e o risco de assumir esta profissão.
Posto isto, parece crucial haver uma reforma do nosso sistema de saúde e atender aos pedidos dos nossos profissionais. Estamos a perder gratuitamente profissionais de excelência e a tornar precário o acesso à saúde em Portugal. Os cidadãos precisam de cuidados, mas quem os presta também precisa de ser cuidado. E parece ofensivo quando o próprio Ministro da Saúde prefere facilitar a contratação de médicos estrangeiros, ao invés de segurar e valorizar os portugueses.
Sara Bernardo
[1] Salomé Leal. “Não é fácil ser-se médico no SNS. O que motiva a emigração de médicos portugueses?”. Polígrafo. 2020. Consultado em: https://poligrafo.sapo.pt/sociedade/artigos/nao-e-facil-ser-se-medico-no-sns-o-que-motiva-a-emigracao-de-medicos-portugueses
[2] Martins C. Rita Rodrigues. MGFamiliar. 2018. Consultado em: https://www.mgfamiliar.net/blog/rita-rodrigues-orsa/


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