A (Des)Centralização da Cultura em Portugal - Fusão

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

A (Des)Centralização da Cultura em Portugal

 


Reconhecemos Portugal como um país centralizado em variados setores e são longos os debates sobre a implementação de medidas que promovam a descentralização dos serviços. No entanto, a dinâmica entre densidade populacional, acessibilidade de serviços e medidas políticas é complexa e evoluiu muito ao longo da história. No setor da cultura não foi exceção.

  O fenómeno da centralização remete ao século XV e XVI, quando Lisboa, pelas suas condições geográficas se tornou o epicentro associado à expansão marítima e, consequentemente, do comércio ultramarino. A cidade expandiu rapidamente, tanto a nível populacional como de serviços. A cidade do Porto, com uma localização geográfica também favorável e ponto importante de produção de vinho, cresceu associada ao desenvolvimento económico da zona. Ao longo dos anos houve ainda períodos de êxodo rural em que as pessoas se mudaram para o litoral em busca de melhores condições de vida, como é exemplo o final do século XIX com a industrialização dos métodos agrícolas e a diminuição da necessidade de mão de obra. Assim, foi-se construindo o desequilíbrio de serviços entre o litoral e o interior.

  Historicamente, Portugal tem mantido um modelo administrativo centralizado com concentração de poder e uma hierarquia coordenada com agentes locais. Se por um lado essa estratégia permite tomar decisões de forma rápida e uniforme, por outro é importante considerar a realidade local e como esta é afetada de forma a não causar ineficiências administrativas e desigualdades. Especialmente num país com uma heterogeneidade populacional marcada e prevalência de uma população mais envelhecida no interior, é importante garantir a conexão às diferentes realidades e crenças. O investimento e a gestão de serviços fundamentais são os que têm recebido mais críticas.

  No setor cultural assistimos a uma grande discrepância de ofertas. Existe muita diversidade cultural e encontramos medidas de preservação e promoção de tradições muitas vezes associadas ao turismo, como forma de enriquecer e partilhar o que temos de melhor, enquanto se estimula a economia local. No entanto, as grandes cidades continuam a ser o principal ponto onde vemos emergir novos artistas, espetáculos e novas formas de arte com uma grande centralização de oportunidades e apoios. A cultura exerce um papel fundamental no desenvolvimento e crescimento das pessoas e, consequentemente, da sociedade, contribuindo para a formação da identidade de um país. Esta, historicamente é uma forma de expressão, divulgação de ideias com estimulação da opinião crítica para além de uma forma de entretenimento. Ao centralizarmos a cultura, não só corremos o risco de diminuir a representatividade e envolvimento da heterogeneidade de realidades no nosso país, como contribuímos para o elitismo do público, distanciando muitas pessoas que se veem privadas de participar em várias atividades. Para além disto, a desigualdade acentua-se para os que têm o desejo ou interesse em trabalhar na área ou desenvolver competências e trabalhos artísticos no interior. Esta vontade é muitas vezes toldada pelo que acreditam e veem ser possível atingir, reforçando a importância da representatividade. 

  Perante este panorama, gerou-se a discussão de medidas que promovam a descentralização. Como nota final, ficam algumas sugestões culturais na cidade da Covilhã. 

  O Teatro das Beiras é uma companhia profissional desde 1974, que conta desde sempre com o apoio do Ministério da Cultura, e é um projeto de descentralização teatral na Beira Interior, embora também tenha apresentado as suas produções pelo país. É responsável por organizar o Festival de Teatro da Covilhã e em 2023 recebeu várias companhias convidadas no âmbito da iniciativa “Quartas de Teatro”, que teve o objetivo de trazer novas propostas teatrais uma vez por mês.

  A Tinturaria - Galeria de Exposições é uma galeria direcionada à promoção de novos talentos com exposições temporárias desde 2006. Recebeu exposições a nível internacional, de artistas locais da Beira Interior entre outras descentralizadas. Entre as formas de arte promovidas encontravam-se fotografia, pintura, gravura e desenho, escultura, azulejo, filme, instalações sonoras e instalações visuais. Atualmente, encontra-se encerrada para obras de requalificação com o objetivo de melhorar as infraestruturas e receber exposições de maior dimensão.

  Por fim, a companhia de dança contemporânea Libellula Dance Company, criada em 2021 e sediada no Conservatório da Covilhã, conta já com dezenas de apresentações e recebe bailarinos internacionais em modelo de residência artística de forma a aumentar o contacto com diferentes abordagens estilísticas e contribuir para a formação de bailarinos.

   Embora a evolução seja muito positiva, continua a ser imperativo democratizar o acesso à cultura e trabalhar num processo de sensibilização para a vertente cultural com criação de públicos e de forma a estimular o interesse e o desenvolvimento, celebrar a diversidade cultural e impulsionar a participação ativa de todas as regiões. 


Catarina Barros


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