Celebraram-se 50 anos do 25 de abril, mas podiam ser 42 ou 51 que o sentimento não deveria ser diferente; contudo, a condição humana sempre se sentiu atraída por formas redondas e perfeitas, então 50 soa e parece especial. Marco crucial na nossa história portuguesa, o 25 de abril traduz-se num sentido de identidade, sem o qual ninguém é verdadeiramente português. Abril é um símbolo - símbolo de luta pela liberdade, democracia, direitos humanos, valores que permanecem fundamentais, e se revelam cada vez mais, neste mundo atual, em constante transformação. É um símbolo de democracia, de uma revolução que no seu silêncio gritou mais alto.
Será necessário, então, continuarmos a falar deste marco histórico, tão transversal e duradouro? Será que não aprendemos todas as lições que tínhamos a aprender com o 25 de abril?
Num mundo em que, dia após dia, a liberdade de expressão e a democracia são constantemente desafiadas, os direitos fundamentais nunca devem ser tidos como garantidos, mas sim defendidos ativamente. Desta forma, a Revolução dos Cravos lembra-nos da importância de permanecer vigilantes. Somos apenas mais um, no panorama europeu, que gostamos tanto de ter como referência, onde a direita radical tem vindo a ganhar expressão. “Será que não aprendemos nada com o 25 de abril?”, perguntam os defensores da democracia. Vilanizar ideias ou partidos que tentam atacar a democracia parece a solução mais fácil, mas quem procura uma democracia séria e sã sabe que não é esta a solução. Será que esta onda crescente e assustadora não é um retrato de uma sociedade que procura refúgio e respostas que a democracia, que tanto adoramos e queremos proteger, não consegue dar?
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
Sophia de Mello Breyner
Em 1974 conseguiu-se uma revolução pacífica, com flores em vez de sangue e canções em vez de caos. Agora somos jovens com acesso à educação, somos homens que se podem expressar livremente, somos mulheres que podem votar, somos um povo com um legado. Mas somos, também, quem carrega o dever de preservar e honrar uma memória histórica e comum. Será que hoje podemos aprender algo com o 25 de abril? Será que não tomamos como dado adquirido a liberdade de expressão, o livre acesso a um sistema de saúde, a possibilidade de termos uma educação superior? Será que o 25 de abril não é uma incitação a todos que acreditamos que, para além de tudo já alcançado, podemos conseguir ainda mais? Que a mudança positiva é constantemente possível e que podemos construir um futuro ainda mais democrático, ainda mais justo? Compreender o significado desta revolução permite entender a dimensão dos desafios que temos pela frente, na defesa da desigualdade social, da discriminação racial e de género, na crise ambiental. Compreender a memória comum que carregamos nas costas impõe-nos a responsabilidade de não deitarmos tudo por terra e de continuarmos a trabalhar por uma democracia que tanto fez por nós.
Há 50 anos “habitamos a substância do tempo, emergimos da noite e do silêncio”. Há 50 anos somos mais livres, mais humanos. Nós somos, mas o mundo, maravilhoso e aterrador, parece ter dificuldade em acompanhar. Haverá espaço neste mundo, cada vez mais tecnológico, para canções e poemas? Haverá tempo neste mundo rápido de instantes e cliques, para dialogar e debater? Haverá oportunidade neste mundo conflituoso, tenso e caótico para pertencer, para sermos uma comunidade? Sabemos das conquistas, mascaramos o sofrimento para celebrar um sonho. Temos 20 anos e o que sabemos de abril nem perto está do que este verdadeiramente foi. Passaram-se 50 anos... É imperativo aprender com o 25 de abril para não precisarmos de ser revolucionários como antigamente.

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