“Porque devo ter o trabalho de ler o que não te deste ao trabalho de escrever?”
- Autor desconhecido
A cada dia, a inteligência artificial (I.A.) é alimentada com mais e mais informação. Com a conveniência que advém desta, mais pessoas utilizam ferramentas com este recurso e, consequentemente, assim se forma um ciclo. Mas, então, que relação é que isto tem com a arte?
Quem passa algum tempo na internet sabe perfeitamente que a inteligência artificial tem vindo a desenvolver-se cada vez mais. Chegámos já a um ponto em que, muitas vezes, é virtualmente impossível distinguir a realidade de imagens geradas por I.A.. Desta forma, também a arte será afetada por isso. Pessoas conseguem descrever aquilo que querem a uma máquina que, por sua vez, regurgita o trabalho de milhares de artistas dos quais se “alimentou” ao longo do tempo, sem consentimento destes, com o propósito de entregar ao “artista de I.A.” aquilo que ele solicitou. De seguida, este “artista” coloca a sua arte em plataformas, vende-a, faz o mesmo que qualquer outro. Mas o trabalho é, realmente, seu? O esforço, a recompensa de admirar uma obra após horas e horas de trabalho, a satisfação de ver que conseguiu realmente concretizar aquilo que tinha em mente, estão lá? Para muitos, talvez. Mas para outros, não. E, enquanto alguns artistas passam a ser “artistas de I.A.”, pela conveniência e facilidade que esta oferece, o oposto também vem a ocorrer, numa busca por essa mesma satisfação e alcance de arte que possam catalogar como sua.
E os artistas? Foram eles que deram a sua arte, a partir do momento que a colocam na internet. Não é ético e é, no fundo, como se eles fossem cozinheiros, a I.A. pegasse nos seus pratos, fizesse uma mistura, e oferecesse o prato já preparado a alguém que clama ter direito a chamá-lo como seu. O mesmo ocorre com a escrita, e esta não afeta só artistas. Quantas ferramentas já têm assistentes de I.A. integradas? Como exemplo, a Google foi alvo de um processo, acusada de utilizar dados da sua plataforma, considerados “publicamente disponíveis”. Mas isso “nunca significou uso gratuito para qualquer finalidade”, disse Tim Giordano, advogado. “As nossas informações pessoais e nossos dados são propriedade nossa, são valiosos e ninguém tem o direito de simplesmente os usar para qualquer fim.” [1] A I.A. veio para ficar, e cada vez mais vai recorrer ao que conseguir para se expandir e alimentar das diversas facetas da vida humana. A conveniência e facilidade que temos em gerar o que quer que seja a partir de um simples clique vem sempre com um preço que, no futuro, poderemos ter de vir a pagar.
Felizmente, haverá sempre quem prefira apoiar criações feitas por pessoas. O esforço é sempre recompensado, e acredito que esse é, realmente, o caso. Para mim, haverá sempre um carinho especial por criações feitas com coração e esforço, e nunca por “arte” fria e, no fundo, sem vida, uma junção destrutiva em vez de construtiva.
Margarida Reis
[1] 1. Thorbecke C. CNN [Internet]. Google hit with lawsuit alleging it stole data from millions of users to train its AI tools | CNN Business; 11 jul 2023 [citado 30 jun 2025]. Disponível em: https://edition.cnn.com/2023/07/11/tech/google-ai-lawsuit/index.html


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