setembro 2024 - Fusão

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Do primeiro ao último primeiro dia

setembro 26, 2024 0
Do primeiro ao último primeiro dia


    Acordas de manhã, 1º dia da faculdade, entraste no curso que sempre quiseste, ou não, mas de alguma forma vieste aqui parar. Do nada tudo é amarelo, os cadernos, a bolsa que te oferecem, a t-shirt nova a dizer “Medicina - Covilhã”. Fechaste os olhos por uns segundos e, quando os abriste, de repente, a camisola amarela é agora uma capa negra. O estojo provavelmente já não existe e o sonho já não é assim tão nítido e intenso. Surge a questão: será que tudo mudou assim tanto? Ou só tudo aparenta mudar?


    De repente todos esperam muito de ti. A tua família não tarda quer uma receita, os teus amigos da cidade neve querem juras de visitas e jantares mensais, os teus amigos lá de onde vieste já não conhecem bem o teu novo eu e só te perguntam “mas então ainda não acabaste?” - não, ainda não acabei…. Vives um misto de alívio e desespero… De repente, uma vida que construíste e uma casa que criaste não o serão mais. Estás outra vez quase de malas às costas, pronto para partir.


    Fechas os olhos por mais uns segundos e quando os abres de novo sentes-te nervoso, ansioso. Será que vão gostar de mim? Será que preciso que gostem de mim? Quero ir à praxe, não quero? Tenho de estudar, será que vou chumbar a “biocel”? Fechas os olhos, abres os olhos, continuas nervoso, ansioso. Será que escolho ficar em casa e poupo dinheiro? Ou será que quero ir para um hospital diferente? Será que fico cá, que já conheço e é seguro? Será que tenho média? Ok, vou pensar nisso depois…


    A praxe passa, as memórias ficam. O primeiro ano voou e 6 anos também. O final chega e as indecisões, as escolhas, permanecem. Os teus amigos são os mesmos do início, ou talvez as coisas tenham mudado. Que academia escolher? Será que sei o que quero ser? Porque é que não estudei mais? Devia ter feito mais melhorias….


    Colocas a fita branca na capa. Agora és mesmo finalista. Ficas confuso, achavas que este dia nunca iria chegar. És dos que pode tudo, mas não pode nada. Achavas que quando este dia chegasse ias saber tudo… ou pelo menos muito mais. Achavas que ias ser um quase médico cheio de certezas, mas não és. Continuas-te a sentir como quando eras caloiro, perdido. O sonho continua, talvez um pouco menos intenso, ou com uma intensidade diferente, mascarada pela ansiedade e por um certo peso que a responsabilidade da futura profissão impõe. Mas também, mais nítido. Definitivamente mais nítido.


    Acabas por concluir que a vida dá sempre o ar da sua graça ao ser tão circular. Caloiro ou finalista, seremos assim tão diferentes? Fechas os olhos, abres os olhos. Finalista ou caloiro, seremos assim tão iguais? Numa fração de segundo consegues sentir como é ser um ou outro. Na verdade és os dois ao mesmo tempo.


    Acordas de manhã, último 1º dia de aulas, fizeste o curso que sempre quiseste, ou não, mas de alguma forma vieste aqui parar. Do nada tudo é preto, as capas, as pastas, a t-shirt nova a dizer “Medicina - Covilhã, Finalista”. Restarão apenas as fitas amarelas, que guardam as memórias daqueles que fizeram os últimos 6 anos. Tudo mudou, mas tu não te apercebeste disso…


    P.S.: A porta do lado esquerdo dos portões da fcs está sempre aberta, se alguma vez precisarem - parece uma metáfora mas não é, é mesmo uma falha na segurança… de vez em quando dá jeito (confiamos em vocês para guardar o segredo)


Caloira Maria Monteiro, finalista

Caloiro Renato Martins, finalista




segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Hora do Fusão: A nova moda dos painéis solares

setembro 23, 2024 0
Hora do Fusão: A nova moda dos painéis solares

 



Portugal é um dos países da União Europeia com maior exposição solar. Nos últimos anos, este facto tem vindo a ser cada vez mais explorado, mas será que a forma como tal tem vindo a ocorrer é correta?
Recentemente, ocorreu uma troca de e-mails entre vários membros da FCS que abordava este mesmo tema. Quando chegamos à faculdade que tão bem conhecemos, as árvores trazem frescura, sombra e, de modo geral, aumentam o bem-estar. É irónico que os painéis sejam colocados para “reduzir os custos de energia”, “diminuir as emissões de CO2” e “garantir zonas de sombra para as viaturas” quando estas duas últimas funções são, também, cumpridas pelas árvores, ainda que em menor escala. Apesar das emissões de CO2 serem efetivamente reduzidas, era mesmo necessário o abate de árvores naquele local? Os painéis não poderiam ser instalados em qualquer outro sítio? A FCS apresenta vários espaços sem árvores e amplos, pelo que a escolha parece ter sido algo apressada. Adicionalmente, todos os frágeis ecossistemas que tanto tempo demoram a aparecer nas áreas verdes são destruídos com uma enorme facilidade.
No entanto, foram plantadas 53 novas árvores na FCS, nomeadamente espécies autóctones, (amendoeiras, carvalhos-negrais, carvalhos-alvarinhos, vidoeiros, tramazeiras e teixos). Desta forma, com um investimento superior a 2,3 milhões de euros, 1.323 painéis fotovoltaicos serão colocados até dezembro.[1] Com um financiamento total englobado no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – Programa de Eficiência Energética em Edifícios da Administração Pública Central, a UBI afirma que “vai economizar cerca de 60% do consumo de eletricidade da Faculdade de Ciências da Saúde (FCS) e reduzir a pegada carbónica.”
No passado dia 06/09/2024 ocorreu a 2ª Sessão de apresentação do projeto “Instalação de UPAC com sistema de armazenamento na Faculdade de Ciências da Saúde da UBI”. No entanto, as aulas apenas começaram a 9, pelo que muitas das pessoas interessadas pelo tema não tiveram oportunidade de assistir à sessão. Seria esclarecedor se tivesse sido produzido algum material acerca dos pontos abordados, nomeadamente o motivo pelo qual foi necessário abater árvores tão velhas em prol de tecnologia que talvez pudesse estar disponível no telhado da faculdade, ou em qualquer outro sítio.
Uma das pessoas envolvidas na troca de e-mails concordou em falar connosco e ofereceu a seguinte explicação: “o projeto é benéfico no ponto de vista de gastos energéticos e foram plantadas X árvores para compensar as abatidas... das quais algumas já têm vindo a secar. Acredito que a instalação de painéis é mais relevante a nível empresarial que ambiental. O telhado da FCS tem espaço para instalar uma rede de painéis solares. É, ainda, um espaço que não prejudicaria o ambiente, as árvores adultas e o bem-estar dos alunos... que agora chegarão à faculdade com um estacionamento cheio de painéis solares, em vez do aspeto natural característico da FCS que a distinguia de tantas outras faculdades. A diminuição de espaços verdes frequentados por alunos, docentes, funcionários, entre outros, não deve ser ignorada em prol da rentabilidade empresarial.” 

Concluindo, esta situação em baixa escala pode não parecer preocupante e, obviamente, trará benefícios ao nível de energia limpa. Mas não podemos esquecer-nos de que florestas inteiras são arrasadas em prol de hordas de painéis. Cada ecossistema deve ser preservado ao máximo, independentemente do seu tamanho, e tal deveria ter-se mais em conta aquando do abate de árvores, especialmente daquelas mais velhas que nós.


Artigo por: Margarida Reis


[1] https://www.ubi.pt/Noticia/7759