Acordas de manhã, 1º dia da faculdade, entraste no curso que sempre quiseste, ou não, mas de alguma forma vieste aqui parar. Do nada tudo é amarelo, os cadernos, a bolsa que te oferecem, a t-shirt nova a dizer “Medicina - Covilhã”. Fechaste os olhos por uns segundos e, quando os abriste, de repente, a camisola amarela é agora uma capa negra. O estojo provavelmente já não existe e o sonho já não é assim tão nítido e intenso. Surge a questão: será que tudo mudou assim tanto? Ou só tudo aparenta mudar?
De repente todos esperam muito de ti. A tua família não tarda quer uma receita, os teus amigos da cidade neve querem juras de visitas e jantares mensais, os teus amigos lá de onde vieste já não conhecem bem o teu novo eu e só te perguntam “mas então ainda não acabaste?” - não, ainda não acabei…. Vives um misto de alívio e desespero… De repente, uma vida que construíste e uma casa que criaste não o serão mais. Estás outra vez quase de malas às costas, pronto para partir.
Fechas os olhos por mais uns segundos e quando os abres de novo sentes-te nervoso, ansioso. Será que vão gostar de mim? Será que preciso que gostem de mim? Quero ir à praxe, não quero? Tenho de estudar, será que vou chumbar a “biocel”? Fechas os olhos, abres os olhos, continuas nervoso, ansioso. Será que escolho ficar em casa e poupo dinheiro? Ou será que quero ir para um hospital diferente? Será que fico cá, que já conheço e é seguro? Será que tenho média? Ok, vou pensar nisso depois…
A praxe passa, as memórias ficam. O primeiro ano voou e 6 anos também. O final chega e as indecisões, as escolhas, permanecem. Os teus amigos são os mesmos do início, ou talvez as coisas tenham mudado. Que academia escolher? Será que sei o que quero ser? Porque é que não estudei mais? Devia ter feito mais melhorias….
Colocas a fita branca na capa. Agora és mesmo finalista. Ficas confuso, achavas que este dia nunca iria chegar. És dos que pode tudo, mas não pode nada. Achavas que quando este dia chegasse ias saber tudo… ou pelo menos muito mais. Achavas que ias ser um quase médico cheio de certezas, mas não és. Continuas-te a sentir como quando eras caloiro, perdido. O sonho continua, talvez um pouco menos intenso, ou com uma intensidade diferente, mascarada pela ansiedade e por um certo peso que a responsabilidade da futura profissão impõe. Mas também, mais nítido. Definitivamente mais nítido.
Acabas por concluir que a vida dá sempre o ar da sua graça ao ser tão circular. Caloiro ou finalista, seremos assim tão diferentes? Fechas os olhos, abres os olhos. Finalista ou caloiro, seremos assim tão iguais? Numa fração de segundo consegues sentir como é ser um ou outro. Na verdade és os dois ao mesmo tempo.
Acordas de manhã, último 1º dia de aulas, fizeste o curso que sempre quiseste, ou não, mas de alguma forma vieste aqui parar. Do nada tudo é preto, as capas, as pastas, a t-shirt nova a dizer “Medicina - Covilhã, Finalista”. Restarão apenas as fitas amarelas, que guardam as memórias daqueles que fizeram os últimos 6 anos. Tudo mudou, mas tu não te apercebeste disso…
P.S.: A porta do lado esquerdo dos portões da fcs está sempre aberta, se alguma vez precisarem - parece uma metáfora mas não é, é mesmo uma falha na segurança… de vez em quando dá jeito (confiamos em vocês para guardar o segredo)
Caloira Maria Monteiro, finalista
Caloiro Renato Martins, finalista
