João, 22 anos, estudante do 4º ano de Medicina, será submetido a exame de Nefrologia na próxima semana. Abre o computador e descobre que tem, aproximadamente, 453 slides para estudar. De seguida, abre outro separador e, (in)conscientemente, abre a página do Instagram e vê que os seus amigos lhe enviaram 7 reels - “oh não, o conteúdo curto, brilhante e imediato que nos é oferecido diariamente estragou a minha capacidade de concentração”. Verifica a data do exame, “ainda tenho tempo”. Olha para a janela e está um sol radiante. Liga a um amigo e vão tomar café. Chega à noite a casa e apercebe-se que magicamente o conhecimento não tomou conta dele, que devia ter estudado. “Não me consigo concentrar. Até a minha mãe diz que parece que tenho espetos na cadeira, não consigo estar quieto a estudar. Eu devo ter ADHD”, ocorre-lhe o pensamento porque ainda não teve Psiquiatria e ouviu falar disso na televisão.
Não, isto não é um caso real. Mas será que é um caso assim tão distante da realidade? Quantos de nós deixamos obrigações para depois? Quantos de nós nos justificamos com “eu juro que trabalho melhor sob pressão”?
A procrastinação é um fenómeno intrigante e paradoxal que, apesar de tão comum, carrega uma complexidade psicológica profunda. Na sua essência é o ato de adiar ou evitar tarefas, mesmo tendo consciência que daí podem advir consequências negativas. É adiar o ginásio mais um dia, porque hoje não dá jeito. É “começo a limpar a casa depois deste episódio,... depois deste,... não agora é que é”. É uma constante batalha interna onde nos deparamos com uma resistência aparentemente inexplicável.
A grande novidade, que não surpreende ninguém, é: todos procrastinamos. Mas ter ADHD é diferente. Se observarmos um único comportamento associado a ADHD, isoladamente, é algo que pode acontecer a qualquer pessoa. ADHD começa quando vários tipos desses comportamentos ocorrem repetidamente, e interferem no dia a dia de quem tem esta condição.
Mas então o João tem ADHD? Ou é só procrastinador nato? A Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade (PDAH ou ADHD se preferirem dizer em inglês) é uma condição neuropsiquiátrica complexa que afeta tanto crianças quanto adultos, reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), pode impactar significativamente a vida académica, profissional e social dos indivíduos.(1)
A PDAH manifesta-se por meio de dois conjuntos principais de sintomas: desatenção e hiperatividade/impulsividade, que podem ocorrer de forma isolada ou combinada. Assim, pessoas com PDAH podem apresentar dificuldade em manter o foco, distraem-se facilmente (quer seja com estímulos externos ou pensamentos irrelevantes que os desviam constantemente da tarefa em mão) e têm tendência para a desorganização. Podem apresentar uma inquietação constante, dificuldade em permanecer sentado e até mesmo comportamentos impulsivos, como interrupções frequentes em conversas ou decisões menos ponderadas.
O diagnóstico da PDAH é clínico, baseado numa avaliação detalhada dos sintomas e do seu impacto na vida diária. Profissionais de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, utilizam critérios do DSM-5, questionários, entrevistas e, às vezes, testes neuropsicológicos para confirmar o diagnóstico.
Mas existe uma solução e é perfeitamente gerível. O tratamento da PDAH é multifacetado, e envolve frequentemente uma combinação de medicação e terapia comportamental. Apesar dos desafios, com o diagnóstico e tratamento adequados, muitas pessoas com PDAH conseguem levar vidas produtivas e satisfatórias. É crucial aumentar a consciencialização e a compreensão sobre a PDAH para promover um ambiente de apoio e aceitação, permitindo que indivíduos com a patologia alcancem seu potencia máximo. E talvez parar de banalizar o “juro, tenho ADHD, fiz um daqueles testes que aparece na internet.”
Trazemos-vos então, leitores, uma entrevista com uma colega de medicina que está, de facto, diagnosticada com PHDA, para ser possível compreender melhor a diferença entre a procrastinação e esta condição.
Quais são os desafios de viver com PHDA não diagnosticada?
Em primeiro lugar, o mais importante é perceber que cada pessoa tem a sua experiência e vivência com esta condição. Nem toda a gente apresenta os mesmos sintomas. Durante todo o meu percurso escolar antes do ensino superior vivi com PHDA não diagnosticada. Sempre tive que trabalhar o dobro que os meus colegas para alcançar resultados parecidos e, com a entrada em Medicina, deixei de ser capaz de ultrapassar sozinha as dificuldades... Era muito fácil deixar os pensamentos intrusivos governarem e não conseguir ouvir: "Vou estudar, sou capaz".
O que mudou com o diagnóstico?
Comecei a aceitar que o que antes conseguia batalhar sozinha é algo de que me devo orgulhar, mas que não faz mal ter ajuda. Assim, com 20 anos, comecei uma medicação específica para o PHDA (Elvanse) e monitorização psicológica e psiquiátrica.
O que mudou com a medicação?
Consigo notar uma diferença na quantidade de informação que consigo reter num determinado período de tempo. É importante referir que a medicação não é uma poção mágica que torna tudo fácil. Ainda me questiono muitas vezes o quanto é PHDA, o quanto é procrastinação e o quanto é apenas preguiça.
Quais os efeitos negativos da medicação?
É uma anfetamina e, nas festas, não se deve misturar bebida e anfetaminas! Para além disso, há um aumento nos tremores fisiológicos e da ansiedade (porque PHDA e ansiedade não é o melhor…) Outra coisa negativa é o preço. A Ritalina é mais barata. O Elvanse leva a perda de apetite e, sendo um estimulante, tem potencial para o abuso e dependência. Pode ainda levar a cardiopatias, hipertensão...
Como enfrentas a PHDA? E a procrastinação?
Para a PHDA tenho a medicação para me ajudar e a procrastinação é uma batalha a continuar, mas na qual não estou sozinha. Nem toda a gente pode rever-se num diagnóstico de PHDA, mas toda a gente tem momentos na vida que procrastina. “A motivação é algo que aparece com o tempo e trabalho.”
Quais os aspetos da tua vida que sentes mais perturbados por este transtorno, que achas que não se verificariam caso se tratasse apenas de procrastinação?
Como referi anteriormente, nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas, mas um dos mais comuns é a dificuldade de levar uma tarefa até ao fim. Assim, diria que o facto de começar uma tarefa e passado cinco minutos estar a fazer outra, tem mais a ver com a PHDA do que com a procrastinação.
A procrastinação, a meu ver, é adiar o começo de uma tarefa (escrever uma entrada do portefólio) para continuar a fazer algo que nos dá prazer (como ver uma série). Uma pessoa sem PHDA procrastina, por exemplo, a ver uma série, enquanto uma pessoa com PHDA procrastina vendo uma série mas em simultâneo ao estar no instagram, a responder a mensagens no whatsapp… nunca se focando numa só coisa de cada vez.
Para além disso, uma pessoa sem PHDA procrastina em tarefas que não gosta ou nas quais não tem interesse. No entanto, uma pessoa com PHDA procrastina em quase todas!
Como te sentes quando as pessoas dizem ter PHDA por não se conseguirem concentrar?
Sendo o PHDA muito mais conhecido é muitas vezes erroneamente usado, mas ao mesmo tempo há muitas pessoas por diagnosticar. Por isso, o importante é, se necessário, irem a quem, de facto, saiba fazer o diagnóstico.
Para acabar numa boa nota, a todos vocês caros leitores que são apenas procrastinadores e não encontraram uma solução mágica neste artigo, não se esqueçam que, por trás da procrastinação, muitas vezes, reside uma teia de emoções complexas, como o medo do fracasso, a ansiedade, a falta de autoconfiança e, paradoxalmente, o perfeccionismo. O medo de não cumprir as expectativas – sejam elas autoimpostas ou externas – pode paralisar a ação, levando à procrastinação como uma forma de evitar o desconforto emocional. Além disso, a tarefa em si pode parecer tão avassaladora ou aborrecida que procuramos alívio imediato em atividades mais prazerosas ou menos exigentes. Vejamos a procrastinação como um lembrete de nossa humanidade, de nossas falhas e aspirações. Mas sejamos desafiados a encontrar maneiras de superar a inércia, a confrontar nossos medos e a cultivar a disciplina necessária para transformar intenções em ações.
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Autores: Maria Monteiro e Margarida Reis

Sem comentários:
Enviar um comentário