Ser estudante de medicina é, nos dias que correm, quase um título por si só. Talvez por concretizar as aspirações de tantos que ficaram aquém; talvez porque para o alcançar é preciso sangue, suor e lágrimas que muitos dispensam investir (ou ser “descendente em linha direta de beneméritos insignes ainda vivos”, se isso vos disser alguma coisa). Assim, e como qualquer título que se preze provém do reconhecimento de algo, em nós reconhece-se um perfil gerado pela expectativa social, que a todo o custo se tenta fazer cumprir.
Para construir a reputação necessária no meio académico, os estudantes mostram, atualmente, recorrer em larga escala ao fake it till you make it - estratégia que tem vindo a crescer em popularidade, sendo o seu êxito validado por profissionais de saúde mental, bem como em várias áreas da investigação. De facto, alguns psicólogos classificam-na como uma forma de terapia de ativação comportamental, método que se tem mostrado muito eficaz na alteração de padrões de comportamento.[1]
O conceito de fake it till you make it refere-se à ideia de projetar autoconfiança, com o intuito de acreditar que se é capaz de alcançar um objetivo para o qual ainda não se tem as habilidades que o exigem.[2] Para além de caracterizar uma forma de pensar, concretiza-se, na prática, por um conjunto de comportamentos que cooperam para construir a imagem exata que queremos apresentar aos olhos dos outros. E, desta forma, trazemos essa versão idealizada para a realidade, um passo de cada vez - demonstrando a influência da componente psicológica no nosso desempenho. É, de uma forma leiga, dizer que nos enganamos a nós próprios.
Já em jovens médicos, este conceito mostra-se ainda mais generalizado, com particular incidência em internos de especialidades cirúrgicas: durante o processo de desenvolvimento de uma “identidade de cirurgião” - que compreende uma postura confiante e assertiva, visando responder à perceção das expectativas externas - é comum desenvolverem-se mecanismos como o fabrico e/ou omissão de informação, ou mesmo a recusa de ajuda, de forma a evitar ações que criem uma perceção de fraqueza.[3]
Para além disso, a mudança drástica que traz o Ano Comum exponencia ainda mais a sensação de necessidade de integração na exigência do meio médico, mostrando uma postura competente e segura, apesar do mar de expectativas a cumprir. Para entender melhor a perceção de cada parte, falámos com a Cátia Batista e o João Lopes, estudantes do 6º ano, e com a Dra. Inês Lopes, Interna de Ano Comum.
Que tipo de estratégias usaram ou observaram, durante o curso, para afirmar a identidade de “estudante de medicina”?
Cátia Batista - Há pessoas que criam studygrams ou fazem vlogs a estudar e, ao estarem mais conectados com outros estudantes de medicina nas redes sociais, isso acaba também por funcionar como um suporte para elas. Da minha perspetiva, eu acho que vi mais o tentar fazer coisas relacionadas com medicina, mas não tanto com a questão do estudo. Se calhar a estratégia que vou relevar mais é a relação com a parte organizativa: perceber o que está a acontecer no nosso currículo médico, se está bem construído; perceber se a nossa faculdade funciona bem como instituição e se o nosso curso de medicina funciona bem - ou seja, tentar ver mais as coisas a um nível organizativo. Isso também é uma maneira de nos afirmarmos como estudantes de medicina, sermos intervenientes na nossa própria educação. E acho que isso é muito importante.
João Lopes - Aproveitando exatamente o que a Cátia disse, eu acho que me tornei mais estudante de medicina quanto mais me afastava de ser estudante de medicina. Ou seja, sinto que a minha identidade, o estatuto de estudante de medicina, ficou mais afirmado desde que entrei para o associativismo. Quanto menos eu estudava, quantas mais aulas ou estágios faltava - não por ficar a dormir, mas por fazer parte de uma associação - mais me aproximava da comunidade, quer estudantil, quer aquela à nossa volta. Acabamos por lidar com coisas relacionadas com medicina, e com outras não relacionadas: todas elas me foram tornando o mais próximo de um médico que eu neste momento consigo ser. Não foi propriamente o estudo que fez isso. Então acho que, se não tivesse participado em nenhuma atividade extracurricular, não seria de todo tão rico. Isso também me penalizou porque não aprendi tanto, por assim dizer, mas aprendi o que considero ser mais importante. E o resto vem a seguir. Relativamente a outras estratégias: a tal frase "quanto menos tempo tens, mais tempo tens" é verdadeira - eu observei isso no meu caso. Por isso: estejam bem, façam coisas que gostam, não prescindam de nada - é ir um bocado contra a ideia de que estamos sempre a estudar. Nós temos de ser muito metódicos e sacrificar muita coisa, mas a seu tempo. O que eu fiz menos em medicina foi estudar, pelo menos nos últimos anos, e acho que não vou ser pior médico por causa disso.
CB - E construir a nossa identidade como médicos, como o João estava a dizer, também é pegar naquilo que nos é querido para a nossa alma, e fazer com que isso nos torne mais ricos como médicos. Se nós gostamos muito de arte, de música, do que quer que seja - a arte também tem uma componente que nos aproxima mais das pessoas e que nos permite ser mais empáticos. E a comunicação em si, também acho que é essencial.
Sentem-se confiantes e preparados para o Ano Comum, ou têm algum receio que queiram partilhar?
JL - Acho que isto é um bocado geral. Nós achamos que agora o ano comum vai ser a sério, mas não estamos de todo preparados para nada. Ao mesmo tempo, o feedback que temos tido dos nossos colegas mais velhos é de que é um dos melhores anos do nosso percurso de formação enquanto médicos, e é um dos anos em que vamos aprender mais. Então acho que estou entusiasmado nesse sentido: estou mais ansioso do que nervoso. Não sei o que me espera, só tenho as ideias que criei na minha cabeça do que é o Ano Comum, mas estou ansioso.
CB - Eu acho que partilho um bocadinho do sentimento do João. Se calhar, tenho um bocado de receio à mistura, mas é principalmente ansiedade. Agora que estamos numa altura em que temos de estudar muito, só conseguimos ver a altura em que vamos ser médicos, ganhar dinheiro, exercer a nossa profissão - que tanto tempo demorou até aí chegar. Em termos de preparação, não me sinto assim tão preparada, mas acho que nunca estamos 100% preparados. E os principais receios são mesmo que, por estarmos a lidar com pacientes - apesar de ser Medicina Tutelada - acabamos por estar muito próximos dos mesmos, e que os meus gestos clínicos e as minhas atitudes como médica não sejam as mais adequadas, e causem dano. O maior receio é causar dano. Mas aquilo que nós podemos fazer para controlar isso é prepararmo-nos o máximo possível, e tentarmos dar o melhor de nós enquanto médicos. E aquilo que fomos adquirindo ao longo do curso também pode ajudar nisso.
JL - Para ir um bocado de encontro ao intuito disto: eu acho que o que tivemos mais próximo do Ano Comum foi o estágio de 6º ano, que é excelente. Nomeadamente o de Medicina Interna, que é muito bom para nos preparar para o ano comum. Nós estamos lá alguns meses e de facto começamos a sentir que estamos a fazer o mesmo que um um médico. Às vezes somos nós que vemos os doentes, então de certa forma ganhamos um bocado de responsabilidade e percebemos que se calhar até estamos preparados, só precisamos de aprender mais. Mas isto é transversal a toda a gente: acho que a melhor abordagem é fake it till you make it. Eu tenho tido bons resultados.
CB - E se nós acreditarmos que somos capazes, vamos tornar-nos mais capazes também.
JL - Quanto mais as pessoas acreditarem que estás preparado, mais segurança vão ter em ti. Ou seja: um paciente, quando te vê, não sabe o teu percurso. No ponto de vista dele, tu sabes tanto como um médico, ou deverias saber. Portanto, acho que temos de ter confiança em nós; ou fingir a confiança que não temos, e a partir daí ela constrói-se.
Qual é a maior expectativa que têm relativamente ao próximo ano?
CB - Eu acho que tenho expectativas altas: que seja o culminar daquilo para que estudei, daquilo para que me preparei; muita expectativa de que o meu raciocínio clínico fique o melhor possível, e que se torne mais rápido. Também a expectativa de poder aprender muito com quem me rodeia, não ter receio de pedir ajuda - isso é uma das coisas que quero levar mais para o Ano Comum. É muito importante sermos confiantes, mas também temos de perceber quando não sabemos isto, quando temos dúvidas sobre aquilo, e perguntar. Uma das expectativas que também tenho é de construir boas relações com os colegas de trabalho, que é muito importante. E também que encontre diferentes formas de ser médica - até agora encontrávamos diferentes identidades de um estudante de medicina - e que encontre o meu "eu" médico, e continue a enriquecer-me, não apenas como médica mas nos outros campos da minha vida.
JL - Eu vou ser um bocado mais fundamentalista, acho que a maior expectativa que tenho é ver se de facto eu queria mesmo ser médico. Eu sinto que as expectativas se vão cumprir - e, à partida, são tantos anos de formação que acho que já tivemos tempo de perceber se queremos isto ou não, mas nunca vamos perceber mesmo até estarmos lá. Mas se eu perceber que não era isto que eu queria, há muitas outras oportunidades; a medicina é muito vasta, não precisamos de fazer todos o mesmo. E não me posso esquecer, obviamente, da expectativa de receber um ordenado, e transicionar para a idade adulta e para a vida de adulto que todos ambicionamos.
Tendo em conta a tua experiência durante este ano, para o que é que sentiste que o curso te preparou melhor? E para o que é que estavas menos preparada?
Inês Lopes - O pior do ano comum, no início, é que já não estás em estágio - tens um sentido de responsabilidade ainda maior. E na Covilhã nós temos bastante estágio. De certa forma, já estás habituado ao ambiente hospitalar, às questões hierárquicas que se colocam, e percebes o papel que deves ter com os outros profissionais de saúde. Ou seja, não acho que para nós o mundo hospitalar seja uma coisa nova, e isso é bom. Acho que o curso, em específico na Covilhã, nos ajuda muito nisso: o seres proativo, saberes as linhas gerais do teu trabalho, e a partir daí seres um bocadinho independente nesse sentido. E como estás habituado a estar no hospital, tens mais à vontade com os mais velhos para os procurar e colocar as tuas dúvidas. Porque não deixa de ser Medicina Tutelada, não sinto que seja uma coisa totalmente nova.
O ano comum é muito dependente dos estágios que tens. Não acho que seja algo para o qual estamos menos preparados, mas é uma situação em que sais da tua zona de conforto, e tens de saber lidar com isso. Acima de tudo, de uma forma geral, tens de ter confiança em ti e no que tu sabes - já és médico, mas também ter humildade para perceber que tens muito pouca experiência, e não ter medo de pedir apoio dos mais velhos, porque é o dever deles. Ou seja, estás sempre um pouco na incerteza, mas eu acho que a maioria das pessoas estão preparadas.
Consegues identificar alguns comportamentos-padrão nos internos que sejam causados por essa pressão?
IL- Acho que onde isso se pode dizer que acontece com mais frequência é em internatos de especialidade. Eu não sinto mesmo pressão. O que eu acho é que no hospital é tudo muito hierarquizado, sem dúvida. Mas uma coisa é trabalhar numa urgência; outra é trabalhar no internamento, que à partida é mais tranquilo. Mesmo assim, há dias em que há menos gente, e tu tens de perceber que as pessoas que têm mais responsabilidade ficam nervosas, e podem falar de forma um bocadinho pior contigo. Em certos casos pode acontecer propositadamente, por estarem num patamar superior ao teu, falarem contigo de um pedestal um bocado inexistente. Mas eu acho que lidar com egos é uma coisa que fazemos desde sempre.
Enquanto interno de formação geral, o teu papel é mesmo perguntar. Não tens de saber tudo nem de fazer nada sozinho. Mas tens de te proteger a ti, porque dessa forma também estás a proteger os doentes. Não podes deixar que te calquem. Às vezes é uma questão de escolher batalhas: casos específicos que estão a afetar a tua vida profissional, deves sempre discutir com os teus colegas, e com os superiores que podem mudar alguma coisa.
Enquanto finalista, tinhas alguma expectativa/ideia sobre a profissão que acabou por não corresponder de todo à realidade?
IL - Na Covilhã tens uma vida muito particular, crias a tua bolha e a tua família. No final do 6º ano eu estava ansiosa por deixar essa vida e começar a trabalhar, mas depois custou-me um bocadinho. Primeiro porque, como sempre quis ser médica, achei que ia acordar todos os dias feliz e contente para ir para o hospital trabalhar. E fiquei um bocado na dúvida: será que é mesmo isto que eu gosto? Mas depois há dias em que estás a aplicar coisas que aprendeste numa pessoa real, e vês como é que tu podes contribuir positivamente para a vida de uma pessoa que está doente.
Acho que o que custou mais foi a rotina mudar completamente, mas vais criando amizades, e crias formas de colmatar essas coisas. Por outro lado, é um ano que se deve aproveitar da melhor forma que se conseguir: enquanto estamos no hospital, aprender com os mais velhos, e perceber bem como funciona o meio hospitalar e da saúde. Ao mesmo tempo, como é o último ano em que temos muito tempo livre, aproveitar para aprender uma língua, ir para o ginásio, viajar, conhecer novas pessoas. Em conclusão, apesar das minhas expectativas serem um bocadinho diferentes, não está a ser pior ou melhor. Está a ser só diferente. Mas é o ano em que estás a enraizar-te na vida de ser médico. E acho que podemos tirar muitas coisas dele.
1. Bologna, C, “Fake It Till You Make It” Isn’t Just A Cliché. It’s Backed By Science. HuffPost. 2022. https://www.huffpost.com/entry/behavioral-activation-fake-it-til-you-make-it_l_62d7140ae4b0aad58d139763
2. L Mann, D, Fake It Till You Make It. PubMed Central. 2022;7(1):99-100. https://doi.org/10.1016%2Fj.jacbts.2021.12.004
3. Patel, P., Martimianakis, M. A., Zilbert, N. R., et al., Fake It ’Til You Make It: Pressures to Measure Up in Surgical Training. Academic Medicine. 2018;93(5):769–774. https://doi.org/10.1097/ACM.0000000000002113

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