Somos o que sentimos: saúde mental nos dias de hoje - Fusão

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Somos o que sentimos: saúde mental nos dias de hoje

 

A saúde mental é, desde sempre, um tema que levanta muitas questões à compreensão humana. Talvez por termos alguma dificuldade em perceber o que não vemos, ou pela falta de objetividade que lhe é inerente. O que sabemos sobre ela - apesar de ainda limitado - é muito mais do que há meia dúzia de décadas. As ideias diferem, e a especulação e desinformação agravam o panorama: hoje, analisamos a sua natureza e o impacto que tem nas nossas vidas.


Atualmente, mais de um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica, o que nos coloca diretamente no segundo lugar do pódio europeu, liderado pela Irlanda do Norte. Entre as perturbações psiquiátricas, que representam 11,8% da carga global de doenças em Portugal (diretamente atrás das doenças cérebro-cardiovasculares e seguidas pelas doenças oncológicas), são as de ansiedade que têm a maior prevalência (16,5%).[1] 


E, de facto, quando olhamos para nós, a viver em empregos das 9h às 18h, inundados por redes sociais, à mercê do mercado capitalista e do ar poluído que oferecemos aos pulmões, não é difícil de imaginar que possamos estar sujeitos a efeitos colaterais.

Parece-nos uma epidemia geracional que não tem caminho de retorno. Dizem-nos que é de agora, que está na moda, que antigamente não era assim. Acusam-nos de falta de resiliência, de sensibilidade excessiva; prescrevem-nos autocontrolo. A verdade é que as perturbações do foro psiquiátrico sempre existiram - nós é que as vemos com outros olhos. 

Se, de facto, hoje em dia, já não recorremos a técnicas tão rudimentares como a trepanação, ou mesmo a lobotomia (uma das maiores trends ocidentais lançadas por Portugal nos anos 40), continuamos a ter pensamentos moderadamente ancestrais sobre a natureza destas doenças.[2] E é aqui que se impõe a necessidade de as vermos de fora, já que sempre estiveram cá. 


As histórias de familiares que “enlouqueceram”, que não toleravam ruídos altos e organizavam as meias por cores, que falavam sozinhos, que foram vítimas de suicídio, são demonstrações ativas de perturbações psiquiátricas que hoje sabemos chamar pelo nome, mas que na época eram motivo de estigma, agravado pela incompreensão.

Se uma fratura exposta não é “moda”, se um cancro pancreático não é uma tentativa de chamar atenção, por que motivo deve uma doença psiquiátrica ser menos digna de validação? À medida que evoluímos a nível psicossocial, e que implementamos uma visão mais tolerante daquilo que podemos ser, em alguns permanece um medo muito intrínseco de ser vulnerável, de demonstrar fraqueza. Que é, possivelmente, a raiz da questão. Se não nos permitimos ser humanos, não temos margem para melhorar. E a ideia de que a vulnerabilidade é um sinal de fraqueza está completamente virada ao contrário: quem não se expõe ao fogo tem a certeza de que não se vai queimar.


A 20 de agosto do ano passado entrou em vigor uma nova Lei de Saúde Mental, que vem substituir, por fim, a de 1998.[3]  Ao mesmo tempo, foi também lançado o Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior, em parceria com a DGES, e com um orçamento de 12 milhões de euros.[4]  

Estamos numa maré de adaptação social, legislativa e cultural às consequências do nosso modo de vida. Temos ferramentas para o fazer, temos informação e temos propósito. Só nos falta coragem.

Carolina Troia



1. Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Perturbação Mental em Números 

https://www.sppsm.org/informemente/perturbacao-mental-em-numeros/ 

2. Mehta, Parang, What Is Lobotomy?. WebMD. 2022. https://www.webmd.com/brain/what-is-lobotomy 

3. XXIII Governo - República Portuguesa, Nova Lei de Saúde Mental: perguntas e respostas. 2023. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc23/comunicacao/noticia?i=nova-lei-de-saude-mental 

4. DGES, Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior. 2024. https://www.dges.gov.pt/pt/noticia/programa-para-promocao-da-saude-mental-no-ensino-superior



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