“Semaglutida ou semaglutido, vendida sob as marcas Ozempic®, Wegovy® ou Rybelsus®, entre outras, é um medicamento usado para tratar diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso.” É isto que a Wikipedia nos diz sobre o medicamento que anda na boca do povo, vulgo, na boca do TikTok®: o Ozempic®. Mas a verdade é que, apesar desta simples, e fidedigna, definição, o Ozempic® tornou-se algo muito maior do que um simples medicamento. Todos têm uma opinião para dar sobre ele. Ou é porque as Kardashian usaram, porque a avó começou a tomar e já perdeu 10kg, porque a prima tentou comprar ilegalmente mas custava mais de 100 euros ou porque o pai que tem diabetes precisava de tomar, mas como não têm cunha na farmácia, não o consegue comprar.
Se pensarmos pragmaticamente, convenhamos, o Ozempic® não passa de mais um medicamento. É um medicamento efetivamente mediático mas, se nos começarmos a referir a ele como um agonista dos receptores da GLP-1, o mediatismo já se vai perdendo.
Atualmente estão disponíveis em Portugal pelo menos 4 medicamentos injetáveis desta classe farmacológica: o liraglutido, de administração diária, conhecido como Victoza®, o exenatido, de administração semanal, conhecido como Bydureon®, o dulaglutido, de administração semanal e conhecido como Trulicity®, e o nosso semaglutido, o mais conhecido de todos.
A verdade é que, apesar de estarem cotados pela comunidade leiga como polémicos, os análogos do GLP-1 são aceites pela comunidade médica como parte da abordagem terapêutica para a gestão de peso em pessoas com obesidade com comorbidades associadas. Assim, não seria mal pensado que todo o burburinho à volta dos mesmos, sobre ser ético ou não uma pessoa com obesidade utilizar estes medicamentos, talvez se devesse começar a basear em factos, e não apenas em opiniões de um médico tiktoker com preconceito face à obesidade.
Infelizmente, atualmente em Portugal, estes medicamentos encontram-se cronicamente esgotados. Sim, cronicamente esgotados. Não é desde ontem, nem desde da semana passada. Estão mesmo constantemente esgotados. Há anos. Tão esgotados que, em julho deste ano, o Infarmed teve de publicar uma circular normativa sobre a gestão da sua disponibilidade. Nesta circular normativa recomendou que “não fossem prescritos a doentes que não sejam diabéticos” e que “o início de novos tratamentos com agonistas do receptor da GLP-1 deve ser cuidadosamente ponderado face à escassez do abastecimento destes medicamentos e à existência de alternativas que não apresentam constrangimentos”.
Mas a questão que paira é: será que existem mesmo alternativas que não apresentam constrangimentos? Não me interpretem mal, eu percebo o que eles querem dizer, mas, se existe uma alternativa claramente superior, e esta não está disponível por stock, não será isso um constrangimento suficiente? Bom, o que é facto é que a gestão do seu stock é cada vez mais enviesada e pouco equitativa, o que definitivamente não coaduna com o conceito de saúde que gostamos de acreditar que Portugal ainda tem.
Como todos sabemos, o primeiro passo para o tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2 são as famosas mudanças do estilo de vida, que passam pela atividade física e pela perda de peso. Os análogos dos receptores GLP-1 podem ser a alavanca que muitos doentes necessitam para atingir o controlo glicémico, melhorar a sua qualidade de vida e diminuir as complicações associadas ao mau controlo da doença.
Mas será que só mesmo as pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2 é que beneficiariam de fármacos como estes? Ignorando todos os efeitos adversos e prejudiciais ao consumo de medicamentos sem supervisão médica, que já têm vindo a ser documentados, questiono aqueles que ainda são céticos face à sua utilização para a obesidade se não consideram que a adaptação destes fármacos, com respetivo ajuste de dose, para a perda de peso não poderia ser benéfica como método de prevenção da própria diabetes e como tratamento da doença que é a obesidade.
Todos sabemos que a diabetes tipo 2 é uma doença que resulta, em grande parte, mas não apenas, do estilo de vida dos doentes. Então, o que torna mais ético utilizar o fármaco para pessoas que já possuem a doença em detrimento daqueles que muito provavelmente virão a ter a doença? Ninguém defende que se deve começar a prescrever este tipo de medicamento à Dona Manuela que quer perder 3Kg para caber melhor no bikini este ano. Mas sim à Joana, uma jovem com 23 anos, um IMC de 37 Kg/m2, que quase não se consegue mexer, que está deprimida, sem coragem para conseguir ir ao ginásio e que já tentou de tudo e que, como tem uma patologia chamada obesidade, controlando ou não a alimentação, mantém-se inglória nesta luta, mesmo apesar do que todos lhe recomendam. É possível que a Joana ainda não tenha diabetes porque é nova e não tem fatores de risco familiares para a doença, mas quanto tempo é que acham que vai demorar até a Joana iniciar uma metformina?
É verdade que os análogos dos receptores da GLP-1 dão muito que falar. Também é verdade que há muita gente famosa a utilizar estes fármacos quando não necessita. E é ainda mais verdade que há um problema de controlo e distribuição dos fármacos em Portugal. No entanto, nesta fase (já quase não tão) inicial do fármaco, é importante não estigmatizá-lo. São uma classe farmacológica que precisa de ser ainda mais estudada, mas que já é uma poderosa arma terapêutica para doentes com diabetes, e que pode vir a ser uma arma ainda mais poderosa no combate à obesidade se estudada e prescrita de maneira livre de estereótipos e preconceitos. Claro que tudo isto seria mais aplicável num país com stock. Até lá, é continuar a procurar receitas caseiras.
Referências:
https://hospitalcruzvermelha.pt/agonistas-no-tratamento-da-diabetes/
https://www.infarmed.pt/web/infarmed/infarmed/-/journal_content/56/15786/10150386

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