O cheiro a desinfetante, os corredores brancos e o som de sapatos a ecoar são, para muitas crianças, a imagem de algo assustador: uma ida ao médico ou, pior, ao hospital. Mas, e se existisse um lugar onde este cenário fosse transformado numa aventura, e onde os doutores de palmo e meio pudessem ser, afinal, os mais corajosos?
É com este espírito que a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior abre anualmente as suas portas para receber um tipo de paciente muito especial: os amigos das crianças. Falamos dos bonecos, dos peluches e de todos os companheiros de brincadeiras que chegam ao nosso Hospital Faz de Conta.
A XVIII edição decorreu de 17 a 22 de novembro de 2025, com a participação de estudantes de área da saúde, subordinada ao tema “Floresta Encantada”. A iniciativa é simples, mas o seu impacto é profundo. As crianças são convidadas a trazer os seus companheiros inseparáveis: o urso com o braço descosido, a boneca com uma febre terrível ou o cãozinho que engoliu uma peça de Lego. No nosso Hospital, somos nós, estudantes de Medicina, a vestir a bata branca para os receber.
O objetivo é que a criança sinta que a bata branca não é sinónimo de dor ou de injeção, mas sim de ajuda e cuidado. Ao ver o seu bonequinho ser tratado com carinho e prontidão, a criança transfere essa sensação de segurança para si mesma, ficando mais à vontade e cooperativa em consultas médicas futuras.
Este projeto tem um significado particularmente especial para mim. Lembro-me de ser uma dessas crianças, agarrada ao meu cãozinho de peluche. A experiência de vir ao Hospital Faz de Conta com o meu brinquedo, e vê-lo a ser curado por um doutor mais crescido, foi um ponto de viragem.
Hoje, sou eu que visto a bata branca, com a responsabilidade de quem vai ser médica em breve. E sou eu que recebo os pequenos pacientes de agora e os seus brinquedos adoentados, perpetuando o ciclo. É gratificante ver nos seus olhos a mistura de curiosidade e alívio, sabendo que estou a contribuir para que a sua próxima ida a um consultório seja um pouco menos assustadora. É a prova de que a pedagogia através da brincadeira é uma ferramenta poderosa na formação para a saúde.
O Hospital Faz de Conta é mais do que um evento: é uma lição prática de empatia para os futuros médicos e um passaporte para a coragem para as crianças. O nosso trabalho não é só curar ossos e músculos, mas também acalmar mentes - e, neste caso, costurar peluches.
Alexandra Lourenço

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