Comunicação na Saúde: A importância dos pacientes simulados - Fusão

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Comunicação na Saúde: A importância dos pacientes simulados


    Todos nós conhecemos o famoso arquétipo da animosidade entre cães e gatos, mas também já vimos vídeos que contradizem essa ideia. Da mesma forma, a comunicação humana é frequentemente vista como uma habilidade inata, quando, na realidade, é uma competência que se desenvolve e aprimora com prática e reflexão. Esse é o ponto de partida do curso “Uso de Pacientes Simulados na Formação de Profissionais de Saúde”, realizado entre 1 e 15 de abril de 2025 na Universidade da Beira Interior.

    O curso, lecionado por Paulo Vitória, Sérgio Novo, Marta Duarte e Juliana Sá, tem como objetivo ensinar técnicas de encenação e comunicação para representar o papel de paciente simulado – uma metodologia já consolidada noutras escolas médicas, como as de Braga e Aveiro.

    Os pacientes simulados permitem aos estudantes de saúde vivenciar situações reais sem riscos para os pacientes, e praticar habilidades como a tomada de decisão, a empatia e a comunicação clínica. Além disso, o feedback dos pacientes simulados – uma componente crucial que não se obtém com manequins – é crucial para avaliar e melhorar a comunicação dos futuros médicos.

    Esta foi a segunda edição do curso, que surgiu de uma linha de formação em comunicação clínica na Faculdade de Medicina da UBI. A primeira edição, em 2024, funcionou como piloto, mas a versão deste ano trouxe novidades, nomeadamente:

  • Menos teoria, mais prática;
  • Grupo de participantes diversificado, incluindo estudantes da área de saúde e de outras áreas e pessoas externas à universidade;
  • Maior integração de técnicas teatrais para trabalhar a expressão emocional.

    Para além disso, esta segunda edição contou com o financiamento do Plano de Resiliência e Recuperação (PRR), e com incentivos financeiros para os participantes.

    Para compreender melhor esta iniciativa, a Revista Fusão entrevistou os dois principais responsáveis pelo curso, Paulo Vitória, psicólogo e professor da Universidade da Beira Interior, e Sérgio Novo, diretor artístico da ASTA - Teatro e Outras Artes.

De onde surgiu a ideia de criar este curso e como é que se insere na formação em Saúde?

Paulo Vitória (PV): Este curso aparece numa linha que tem sido desenvolvida na Faculdade de Ciências da Saúde para desenvolver as competências de comunicação clínica. Essa linha começa na Unidade Curricular de Bases Psicológicas da Medicina, onde temos um módulo de Psicologia da Comunicação, muito focado na mudança de comportamentos, e mais tarde, numa outra Unidade Curricular, leciona-se a comunicação de más notícias. De facto, a comunicação clínica não acontece no vazio, acontece porque queremos lidar com questões emocionais, ou porque queremos influenciar uma mudança de comportamento, ou porque queremos lidar com uma má notícia.

Qual é o impacto deste curso de pacientes simulados na formação e avaliação dos estudantes de medicina? E qual o seu objetivo central?

PV: Embora o foco imediato seja a educação médica e a avaliação dos estudantes de Medicina, o curso é uma excelente oportunidade de aprendizagem para todos os participantes. Para os estudantes de Medicina, vivenciar o papel do paciente oferece uma perspectiva única, essencial para sua prática futura. No entanto, o tema principal do curso não é a simulação em si, mas a comunicação — uma das soft skills mais críticas na saúde. Assim, o curso é valioso, não apenas para médicos em formação, mas para qualquer pessoa que queira desenvolver essa competência fundamental. A comunicação é uma competência que nos serve a todos, independentemente da nossa vida profissional, e tem até contributos muito importantes para a nossa vida pessoal.

O grupo desta segunda edição é muito mais diversificado. Que vantagens é que essa diversidade traz?

PV: Nesta edição, foi muito importante para nós ter uma mistura de estudantes de Medicina e de outros participantes. Tivemos um grupo fantástico, que incluiu estudantes de Medicina, de outros cursos, de outras universidades, e até de pessoas que já não estão na universidade, o que torna este grupo fantástico em termos de diversidade de idades, experiências e formações.

Sentiu-se um grande envolvimento, participação e entusiasmo, portanto, o grupo correspondeu às nossas melhores expectativas.

Quais os principais desafios de organizar e lecionar o curso, e quais os planos futuros?

PV: Um dos desafios é garantir a sustentabilidade do projeto. Para que os pacientes simulados sejam efetivamente integrados na educação e avaliação médica, o curso precisa de ser realizado anualmente, consolidando uma base de participantes qualificados.

Na primeira edição, tivemos apenas estudantes de Medicina, o que gera conflitos de interesse na avaliação (colegas não devem avaliar colegas). Por isso, procurámos diversificar o perfil dos participantes — incluindo pessoas de fora da universidade, como alunos da Academia Sénior. No entanto, há um obstáculo: noutras faculdades (como Lisboa, Braga e Porto), os pacientes simulados são remunerados. Nós demos um primeiro passo com as bolsas do PRR, mas esse valor é apenas um incentivo à participação no curso, não uma garantia de que atuarão depois como pacientes simulados nas avaliações.

Se não contamos com atores profissionais, como noutras instituições, teremos de encontrar alternativas e criar incentivos adicionais para cativar mais voluntários a longo prazo.

Qual é o papel das artes performativas neste curso?

PV: A componente da arte e do teatro tem um contributo muito importante para a própria dinâmica do grupo, para os quebra-gelos, para as pessoas se sentirem confortáveis e à vontade umas com as outras, e para perderem o medo do ridículo. Mais importante ainda, esta abordagem promove um autoconhecimento que transcende o contexto do curso e permite que, no tal processo de comunicação, estejamos mais inteiros, mais conscientes de nós próprios, e  mais confortáveis com o que somos, com as nossas virtudes, os nossos defeitos, a nossa identidade. Tudo isso está alinhado com o objetivo central do curso, que é melhorar as nossas competências de comunicação.

Sérgio Novo (SN): O contributo das artes performativas é notório e visível, não só porque criam um ambiente descontraído e de confiança, tanto a nível individual como a nível grupal, mas também porque incentivam os participantes a arriscar e a libertar-se do medo de errar. 

As artes performativas também nos permitem uma outra coisa, que é brincarmos ao mesmo tempo, ou seja, aligeirar coisas ou situações que até podem ser muito complicadas, sobretudo a nível de más notícias. Quando estamos num personagem, vamos sentir isso, vamos fazer vivenciar isso a quem nos está a transmitir essas notícias. Acima de tudo, somos pessoas, somos seres humanos e nisso trabalhamos com sentimentos.


    Assim, parafraseando Sérgio Novo, “a capacidade de trabalhar os sentimentos é das melhores qualidades que um profissional de saúde pode possuir”, e foi esta competência que mais foco teve durante o curso. Apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer até ao objetivo final, este curso é o primeiro passo na direção certa para uma educação médica mais completa.


Sara Castro e Alexandra Lourenço

Bibliografia: 

  1. Flanagan OL, Cummings KM. Standardized Patients in Medical Education: A Review of the Literature. Cureus. 2023 Jul 17;15(7):e42027. doi: 10.7759/cureus.42027. PMID: 37593270; PMCID: PMC10431693. 

  2. Higham H, Baxendale B. To err is human: Use of simulation to enhance training and patient safety in anaesthesia. In: British Journal of Anaesthesia. Oxford University Press; 2017. p. i106–14.

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