Get Ready With Me para brincar aos médicos - Fusão

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Get Ready With Me para brincar aos médicos

 


Caros e estimados colegas, apresento-vos a nova epidemia que vem vitimar muito boa gente desta nossa humilde posição de vida - med student influencers - que tem como sintomas principais uma vontade incontrolável de postar fotos em meio hospitalar, romantizar diretas e, nos casos mais graves, um ego dolorosamente inflamado e ruborizado. Esta nova variante não se deteta por zaragatoa, mas atentem e não se descuidem, porque tem alto risco de contágio via fyp, stories e likes. Para melhor compreensão dos sintomas, vamos analisar dois casos clínicos distintos que têm este mesmo diagnóstico.

 

Caso clínico 1 

Estão novamente a fazer doom scrolling depois de um dia de estudo que rendeu tanto como a vossa mesada durante a semana da receção, têm estágio no dia seguinte e o relógio diz que vai tocar dentro de 5 horas e 23 minutos. Perante os vossos olhos veem um dos que padecem desta maleita. Cá está ele! Um estudante de medicina textbook a mostrar como foi o seu dia, as vidas que salvou, as horas que estudou, os cafés que tomou, a forma como equilibrou de forma perfeita o seu dia de profunda produtividade e aprendizagem médica.

Permitam-me fazer uma questão que tem tanto de verdade e certezas como de inveja - desde quando é que até um curso é um ensaio performativo? 

A mente faz comparações automáticas - “eu não consigo estudar 10 horas seguidas”, “não faço diretas a rever conteúdos”, “o meu estágio não é assim tão bom”, “a espuma de leite do meu galão feito em casa nunca vai ter a formosura de um pumpkin spice latte with 3 pumps of sugar free vanilla, extra foam, extra hot, with a sprinkle cinnamon on top”. A verdade é que não precisamos de redes sociais para nos sentirmos insuficientes, o curso já trata disso por nós, mas para quem quiser uma dose extra de inadequação está aqui, ao vosso alcance, à distância de um swipe.

Quando romantizamos cansaço e hábitos tóxicos de produtividade, transformamos exaustão em mérito e olheiras em crachás de honra. Estamos a abrir uma caixa de Pandora que, como estudantes de medicina, devíamos estar a tentar fechar: medicina é estilo de vida, é vocação sem limites nem barreiras da condição humana, quem faz por gosto não cansa! A realidade é que cansa, cansa e mói. E não podemos normalizar ser um peão numa corrida para o burnout, competir por ser quem estuda mais e melhor ou passar horas à secretária como se fosse um desporto olímpico, em que a medalha de primeiro lugar é varizes.



Caso Clínico 2 

Foste à urgência porque o teu organismo decidiu castigar-te pelos restos de arroz com 2 semanas e agora está a expurgar o seu conteúdo por todos os lados. Entre análises, uns comprimidos e umas doses generosas de paciência, finalmente voltas a casa, ainda a tentar recompor a tua dignidade. Respiras fundo, achas que o pior já passou, e abres o telemóvel. Cá está ele, postado e editado -  “A day in the life - med student edition” - um vídeo do simpático estudante de medicina que até colheu muito bem a tua história clínica e, por alguma razão, decidiu incluir uma fotografia tua na sala de observações com um sticker a tapar o teu rosto. Reconheces a tua roupa e a tua postura de derrota que foi, sem o teu consentimento, eternizada numa rede social.

Mesclar o meio da saúde com o digital gera uns quantos senões éticos, quem nos dá a autoridade de partilhar histórias de pacientes da nossa ótica? De colocar fotos na sala de operações como se a apendicectomia da dona Josefina fosse um fundo aesthetic para acompanhar uma música nova da Taylor Swift? 

Ser estudante de medicina não é uma performance. Quando transformamos um leito, um corredor de hospital ou uma intervenção clínica num post, não estamos a ser genuínos, muito menos a educar quem vê sobre o que é a formação médica. É um rasgão da confidencialidade e ética pela qual nos devemos, como futuros médicos, reger. Há um claro desequilíbrio de poder entre nós, que temos o privilégio de ver e aprender com a experiência humana da doença e fragilidade de outrem, e os pacientes, debilitados ou completamente sãos, que estão à mercê do que o estudante de bata branca vai fazer com a experiência de doença ou saúde que com eles partilham. Seja uma foto com as vísceras de alguém de fora, seja um partilhar dos casos clínicos que vimos nesse dia, quem nos dá a autoridade de tornar o íntimo dos outros em conteúdo nosso?

 

Conselhos no Momento de Alta

No final das contas, #MedStudentTok e outros equivalentes são mais do que uma tendência, são um alerta e uma preocupação. Um alerta de que a digitalização da experiência médica, quando aliada a vaidade ou desatenção, pode corroer a confiança, desumanizar o cuidado e confundir aquilo que é aprendizagem com aquilo que é performativo. Uma preocupação porque coloca os standards do estudo, esforço e vocação num patamar inalcançável ao mero mortal, que faz uma sesta malandra depois de chegar do estágio ou tira um dia de descanso para estar com a família. Não nos deixemos enganar pelos 30 segundos da vida de alguém que nos passa na tela, nem caiamos no erro de ver alguém doente como conteúdo e não como uma pessoa.

Perante esta epidemia, caríssimos colegas, não se escondam atrás da máscara, tirem-na. Sejamos sinceros uns com os outros e apliquemos a vacina mais simples e eficaz contra o contágio digital - o bom senso.

 

Francisca Costa 


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