O descongelamento das propinas volta a pôr em cima da mesa uma velha questão: quem paga o preço do ensino superior em Portugal? Depois de anos de valores estagnados, o aumento agora permitido pelo governo ameaça cair, mais uma vez, sobre quem menos pode suportá-lo - os estudantes. E, na Beira Interior, o impacto é particularmente duro.
Estudar fora das grandes cidades é, por si só, um desafio. Na Covilhã, muitos estudantes deslocam-se de concelhos distanciados por 2, 3 ou mais horas de viagem, mas não têm direito a apoio ao alojamento se não forem bolseiros. As rendas continuam altas, a oferta é escassa e os transportes públicos não são sujeitos a apoio financeiro, como nas grandes cidades. Sem bolsa de estudos, não há subsídio de deslocação nem ajuda para a habitação — apenas o peso total das despesas, muitas vezes suportado por famílias de rendimentos modestos a moderados.
É neste contexto que o descongelamento das propinas se torna mais do que uma medida económica. É um novo obstáculo num percurso que, muitas vezes, já é difícil por si. Um ligeiro aumento anual pode parecer insignificante para quem o decide, mas tem um significado muito maior do que a gestão familiar e a economia do país - estamos a regredir. Enquanto deveria haver um esforço coletivo para uma idealizada e tão sonhada abolição das propinas, fugimos do rumo à gratuitidade do ensino e continuamos a contentar-nos com migalhas do Estado e promessas vazias, mais uma vez.
Do lado das universidades, o argumento é compreensível: há falta de financiamento público, as despesas sobem e é necessário garantir a sustentabilidade das instituições. Mas a solução encontrada repete um padrão antigo — transferir o peso do problema para os estudantes. A curto prazo, as universidades podem ganhar alguma margem; a longo prazo, o valor tenderá a aumentar e o sistema perderá equidade, fechando portas a quem mais precisa delas abertas.
Apesar das manifestações e dos apelos das várias associações académicas, na Beira Interior a mobilização estudantil tem sido quase nula e, mesmo quando a há, ainda vemos muita desinformação e conformismo. Muitos estudantes não acreditam que protestar mude algo, outros tentam e lutam contra aqueles que se inserem no sistema. Mais uma vez, quando chega abril saímos todos à rua de cravo na mão.
O descongelamento das propinas é apresentado como uma atualização necessária. Mas, sem políticas que acompanhem essa decisão — reforço de bolsas, apoio ao alojamento e transporte —, o resultado é previsível: menos oportunidades e mais desigualdade. No papel, é uma medida de equilíbrio financeiro. Na vida real, é mais um sinal de que, em Portugal, o ensino superior continua longe de ser verdadeiramente acessível para todos.
Até quando vamos deixar que as nossas vontades sejam contrariadas e que as promessas desapareçam apenas porque alguém decide o nosso futuro, as nossas contas e a nossa voz? No final, quem paga o preço deste tipo de medidas?
Bárbara Azevedo


Sem comentários:
Enviar um comentário