Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém” - Fusão

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Notas de um Amante Cénico - “Sempre Alguém”


Menos de um mês depois, é ainda com as emoções ao rubro que urge dissertar sobre o IX Sarau Cultural do MedUBI "Sempre Alguém".

Não obstante o viés de quem assiste aos espetáculos deste cariz apresentados sob temas diversos há 6 anos, o "Sempre Alguém" surpreendeu. Suscitou algo mais do que entusiasmo e divertimento.

 

Meses antes da apresentação do estado de arte, rumores surgiam de que este ano não seria tão encorpado como o anterior, que não seria para qualquer gosto dado o foco central numa só especialidade médica. Certezas eram dadas de que teria menos momentos musicais e nos era esperado um ritmo pausado. Pois, para espanto dos mais céticos, não só o corpo artístico foi aumentando gradualmente desde então em figurinos, músicos e bailarinos, como a duração da peça excedeu as três horas sem que alma-viva se tenha apercebido.

 

Qual tragédia clássica, o crescendo foi-se formando, começando com a tradicional apresentação demorada das personagens, que conquistaram o público com enredos peculiares. Desde os diagnósticos mais comuns como a depressão, a dependência do álcool e a psicose às mais tradicionais Perturbação Afetiva Bipolar e Esquizofrenia, a história encarregou-se de trazer a palco traços de todas elas inclusive os raros delírio de Cotard, a personalidade narcísica e a outrora apelidada histeria. Ademais, dado o contexto histórico da época, não deixou de ser interessante a forma como foi introduzida a homossexualidade patológica refletida no afeto caricato partilhado entre os dois aspirantes a psiquiatras. Escusado será dizer também que a lobectomia praticada na ainda tenra Zezinha apelou aos sentimentos mais viscerais do público - as expressões de pesar nos seus rostos e no do Dr. Delfim notavam o ceifar de vidas a que muitos foram sujeitos em prol da evolução científica. E, por fim, a peça culminou num inédito clímax triplo - o assassinato do Dr. Delfim, a despedida eterna da alucinação auditiva Prazeres e a revelação da doce Zezinha.

 

Numa outra esfera, intercalaram-se momentos musicais de exímia coordenação sonográfica, dos quais destaco “Telepatia” e “O Pastor”, com arranjo de Bernardo Marques e Bárbara Azevedo, que simultaneamente lhes deu vida com a sua voz quente e imponente. De facto, não havia melhor forma de ler o turbilhão de pensamentos e vozes que pairavam na mente da Nazaré senão como uma “barca da fantasia” que “ao largo ainda arde”. Além disso, não esquecendo a forte influência que a religião tinha no Portugal dos anos 50 (Deus, Pátria e Família), foi de suprema mestria a introdução da textura sonora de “Amaté Adea”, sob a direção musical de Sarah Dias com todo o seu background erudito e considerável quota parte na autoria da peça. A música invocou a atenção dos que se encontravam no auditório, de repente pequeno demais para o que ali estava a ser feito, e os calafrios emocionais que ainda hoje recordo tornaram-se inevitáveis. Pudesse eu ouvir e reouvir os quatro minutos de pura serenidade devota novamente… deixaria de ter pertencido aos 400 ouvintes privilegiados.

 

E como ignorar os bailados? Faria todo o sentido uma tipologia de dança  contemporânea, ou não se tratasse de um espetáculo que convidava a enfrentar sentimentos e emoções. Como tal, foi entregue isso mesmo. Aproveitou-se a versatilidade artística da atriz principal, Mariana Pinheiro, para iniciar o bailado a solo em “O Pastor”, que rapidamente foi acompanhado e intensificado por outros pares que pudessem representar todos os seus pensamentos inquietantes e que a conduziam à frustração interna. Ademais, a dança de salão, nomeadamente o tango, foi meticulosamente apresentada ao som de “Telepatia”, o que seria congruente com a erotomania nitidamente expressa pela apaixonada Prazeres. Contudo, nenhum dos sentimentos suscitados por estas coreografias poéticas poderia ter tido o alcance e a eficácia pretendida sem o notável trabalho multidisciplinar. Não sem razão, todo o processo criativo tem um propósito, desde o guião até ao passo final.

 

 

Sob o olhar clínico, a certo ponto tornava-se complexa a distinção entre causa e consequência. Seria o défice intelectual da Zezinha apenas consequência da lobectomia ou haveria a priori um défice de aprendizagem? Teria Nazaré realmente uma Perturbação de Personalidade Borderline que a sujeitasse à intervenção do marido no seu internamento compulsivo ou seria meramente vítima do ambiente político repressor de então? Teria o hospício convertido-a momentaneamente em doente psiquiátrica? Seria o infanticídio de Rosário uma consequência da sua depressão ou psicose pós-parto ou a sua depressão major resultado de um infeliz acidente?

 

Estas e muitas outras questões prendem-se nas mentes dos curiosos que mergulharam na história daquela noite. A verdade é que, a real obra prima a que assistimos deve-se, acima de tudo, aos seus autores, únicos capazes de desvendar as inquietações que dela resultaram. Tiago Ramos e Sarah Dias, o resultado de duas mentes pensantes, que se uniram e assumiram, pela última vez nesta casa, a coragem de criar um mundo onde os doentes nem sempre são doentes e os lúcidos podem ser os reais doentes.

 

Neste mundo onde as insólitas crenças ainda predominavam, a capacidade de envolver o público no próprio espetáculo tornou-se abismal - prova disso foram as reações de espanto em uníssono, as exaltações fora de tempo e a ovação final interminável. Mas, para lá do ruído da plateia, impõe-se uma questão mais silenciosa que atravessa a narrativa de fio a pavio: afinal, quem é esse “alguém” de que tanto falavam?

De facto, houve um Dr. Delfim que auxiliou na fuga da Nazaré, uma Nazaré que defendeu todas as colegas de clausura, uma Rosário que compreendeu o Padre Abel, um Padre Abel que questionou a postura do Dr. Antero, uma Prazeres que encorajou a Nazaré.

E houve Sempre Alguém que, naquele dia, sentiu a partir de dentro a história que se contou.

 

Bruna Machado


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