Diário fictício de alguém que sobrevive - Fusão

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Diário fictício de alguém que sobrevive

 




O que foi e o que ficou, estamos em setembro de 2018, entrei em Medicina, e ficou para trás o garoto sem responsabilidades, que foi feliz assim mas ficou curto. Não sei se será tudo o que estava à espera, não sei se serei tudo o que esperam de mim. O mundo está a mudar e será que conseguirei acompanhar? Ah, o mundo está a mudar!? E se está! Estava a ver que em 2022, a NASA registou uma média global de temperatura 1,02°C acima dos níveis pré-industriais. Ou seja, em 1700 e troca o passo. Pelos vistos por culpa de ondas de calor extremas que direta ou indiretamente são responsáveis por um aumento de 50% nas hospitalizações.

Estamos em janeiro de 2023, e folheei as notícias. Li que estamos a entrar em ano de El Niño, um fenómeno que causa subida das temperaturas do Oceano Pacífico, e que se irá prolongar pelos primeiros meses de 2024. Abro o computador e estudo o tema. Aparentemente os efeitos desta mudança de ventos e correntes demoram a materializar, pelo que provavelmente só em 2024 é que iremos ter repercussões. Estamos safos, para já. É o meu ano, certamente! Já vamos em maio e se calhar não é o meu ano. Promessas de calor, de sol, mas no meu aniversário, Chuvadas, Granizo, e estamos quase a entrar no Verão.... Olha o que era e o que ficou! Ahah afinal, ao invés do que diz o ditado, foi mesmo ‘’Chuva de pouca dura’’. O calor está a voltar, dias longos, de sol constante, roupas leves e cheiros doces. Talvez… mas o que era e o que ficou, que as notícias não mentem, e agora em julho o calor parece não dar tréguas, por todo o planeta, as temperaturas são recordistas a cada dia que passa. Pelo que a história nos conta, todas as novidades chegam atrasadas a Portugal, pode ser que nisto também não se fuja à regra. Não. Festejei demasiado cedo certamente, ‘’Mais de 40 estações meteorológicas registaram pelo menos 40 graus Celsius’’, em 18 distritos, apenas Faro não estará sob qualquer aviso…. Só está bom para quem está de férias. Não é para mim, tese…enfim…o que era e o que ficou… Desisto de ler notícias… leio hoje, em meados de setembro que, de acordo com o jornal Euronews, o ano de 2023 deverá ser o ano mais quente de que há registo. Não seria este o meu ano? Não me parece que este próximo trimestre vá salvar esta desgraça. O que podia ser e o que está a ficar… definitivamente não é o meu ano, nem o meu…nem o teu, nem o de ninguém, muito menos será o ano do nosso planeta. Estamos agora a atravessar o pico glacial deste Inverno. Mantas e aquecedores, chás e lareiras, gorros e luvas, filmes e sestas. E nada parece aquecer as pontas dos dedos, ou nos impede de recordar saudosamente o verão. Contudo é dos invernos mais quentes que temos observado. O que estará a acontecer ao nosso planeta? O que pode isto tudo mudar? O que era e o que ficou…

Estamos em julho de 2050, Não é mais um diário, é um desabafo, talvez dos últimos, a mudança climática impõe desafios monumentais à saúde global. Já não sei ser médico. O meu receio de, ora vamos cá ver, setembro de 2018, não era em nada menos que justificado. Não consegui acompanhar a mudança… mas acho que ninguém consegue. 

O nosso planeta é um espelho da nossa humanidade, doente. Sempre esteve doente, apenas doente de outra forma. A doença do ego, da ambição desmedida e da tentativa inócua de nos imortalizar acabou por nos tornar mais passageiros, a ironia…

Doenças que só víamos lá longe, ou descritas nos livros, agora assombram o Velho Mundo. E as malárias ou as leishmanioses, que sem dúvida que nos matam agora, e matam bem, não são senão o carrasco de uma sentença prévia, assinada a tinta negra, de forma consciente por todos nós e por quem nos fez assim. Éramos cegos inconformados e agora que temos olhos não os queremos, porque para ver a escuridão que está à frente, ninguém precisa de visão a cores.

E como já não é mais um diário, mas uma profecia em nada indigna do seu capítulo bíblico junto do Apocalipse, numa reminiscência nostálgica, o que era e o que ficou…

O que era brincar na rua, ao sol, mas também à chuva, sem medo de molhar a cara. O que era ansiar por essa chuva, que vinha dar vida às terras e movimento aos rios, e sabor às uvas, e música às telhas, e descanso a todos os bichos que de inverno descansam. E que se tornou no anunciar da chegada dos Invernos rígidos que agoiram todo o tipo de enfermidades para uma população já tão débil que mal sobreviveu aos antagónicos e infernais verões. Incêndios ou Cheias, Pneumonia ou Desidratação, Dengue ou a já antiga asma? Qual será o veneno? Ou sairás vencedor, este ano, desta roleta russa de proporções globais? Para apenas e só talvez sobreviver a toda mais uma volta ao calendário. E perdoem a confusão de sintaxe, a amálgama temporal, com Pretéritos, Presentes e Futuros, mas honestamente não sei para mais, ou sei bem de mais, o que fui e tive, onde estive e como vivi, mas sobretudo o que queria ser e ter, estar e viver. Sei o que era, e que gostava que fosse, e do Futuro… se é que ele existe, e se existe que breve que será, não sei como o usar pois as dúvidas são muitas se sequer o poderei vir a usar. E a ânsia de escrever, antes que esse breve futuro que me resta se esgote, de uma maleita ou doutra que já tarda por me levar.  Eu, de 50 anos, a nova senioridade. Não há como prolongar muito mais e a título de confissão, ainda bem. Ou estarei já eu extinto e será esta a minha penitência? Não me creio como má pessoa, mas certamente não terei direito a paraísos e bonanças pois não paguei a entrada nem sei onde tirar bilhete. Terei sim lugar no que vendem como o Submundo, e se for tão feio como o pintam, realmente não deve fugir muito disto, das calamidades e doenças, dos medos omnipresentes e da falta de luz…. Se calhar vivi no Céu e exilaram-me para o Inferno. Se calhar nada disso existe e a triste realidade é mais difícil de engolir que Fantasias. Se calhar não temos nada para além desta esfera, cada vez menos verde e cada vez menos azul, se calhar é o nosso único planeta e a nossa única oportunidade. Que mundo injusto. Eu tive a minha oportunidade, não merecendo, aproveitei, quem cá fica, de quem é agora a oportunidade, não a tem, porque isto não era nada assim, e olha o que ficou…


Pedro Ferreira



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