O que nos torna humanos? Decerto, já todos nos questionamos sobre o propósito da existência, a nossa condição enquanto seres humanos e a intrincada complexidade inerente à experiência que é viver.
É inegável o papel que a perceção de cada um desempenha na forma como encaramos a realidade. Questões tão simples como a definição de felicidade, a incursão pelos medos e as aspirações, os momentos que nos marcam e constroem a essência, constituem um meio de acesso para as profundezas da psique humana. Ao refletirmos sobre os nossos sonhos, conseguimos visualizar o nosso passado e moldar o futuro, pois há sempre espaço para nos superarmos e levarmos a cabo uma ação transformadora do Eu. Este exercício de introspeção revela, não só, o que nos torna singulares enquanto indivíduos, mas também o que nos aproxima independentemente da barreira temporal.
A beleza da fragilidade está presente de várias formas no nosso quotidiano. Aceitar e reconhecer o seu impacto permite-nos olhar para os outros e para nós próprios através de uma janela consciente repleta de humanidade. O ser humano é um ser social que, muitas vezes, depende do bem estar daqueles que o rodeiam para se sentir completo e realizado, o que nos conduz ao pensamento de que a verdadeira plenitude é alcançada na conexão e na partilha.
Foi neste sentido que decidimos elaborar um conjunto de perguntas de caráter reflexivo e ir para junto das pessoas para perceber e comparar como a perspetiva varia mediante a idade.
Quando confrontados com a interrogação “O que é, para ti, a felicidade?” várias respostas surgiram, no entanto, o seu fundamento permaneceu o mesmo. Alguns descrevem a felicidade como “ Um sentimento.”, outros referem que esse sentimento é “O amor.”, e para a grande maioria esse amor é espelhado através do contacto com os seus entes queridos “Para mim a felicidade é estar junto daqueles que mais amamos” e da superação e atingimento do potencial máximo enquanto indivíduos, “A felicidade para mim é obter motivação a todos os níveis”. Se houvesse uma frase que conseguisse sintetizar a ideia transmitida diria que “a felicidade é viver bem.” e cada um de nós tem a sua forma de viver.
Na continuidade da definição de felicidade, surge a questão “Qual foi o momento mais feliz da tua vida?”. Apesar de distintas, mais uma vez, as respostas voltam a aproximar-se, “quando recebi um novo animal de estimação”, “quando a minha irmã nasceu“, “O meu casamento”. Todas estas citações têm em comum a presença ou o surgimento de outro alguém que veio acrescentar significado às vidas de cada um dos entrevistados. Isto corrobora a ideia de que somos seres sociais, como previamente referido, cujo percurso neste caminho árduo a que chamamos vida, é mais facilmente trilhado quando estamos na presença de alguém que nos acompanha nesta jornada.
Porém, para que seja possível concretizarmos os nossos sonhos e chegar a bom porto, é necessário atentar a alguns obstáculos que por vezes nos petrificam, sendo um deles o medo. Medo de falhar, medo de não sermos suficientes, medo de enfrentarmos a realidade, medo de perder alguém ( “Perder os meus pais.”), medo de nos sentirmos impotentes ( “Ver os outros morrer e não poder fazer nada.)”. Esta questão denotou, contudo e ainda, a evolução da complexidade do pensamento com a idade, distanciando o medo simples de uma criança (“medo de baratas”) do medo profundo da morte de alguém mais velho.
Colocando, de seguida, a vida em perspetiva, quer futura para os mais novos, quer passada para os mais velhos, reconhecemos as aspirações e expectativas dos primeiros (“ser mecânico”, “ser médica”,”ser jogador de futebol”, “ser feliz”...) , bem como, os arrependimentos e desilusões dos segundos (“ Se pudesses mudar alguma coisa quando eras mais novo, o que seria?” “Tinha optado por aceitar o trabalho em Lisboa”, “Fazia quase tudo diferente”, “ tinha arriscado mais”...).
Ainda neste exercício, de olhar para a vida como um todo, na sua, ora curta passagem para alguns, ora longa passagem para outros, refletimos acerca dos momentos mais marcantes, onde, inquietantemente, prevalece a lembrança de momentos negativos, tristes, nomeadamente a morte de alguém próximo (“Quando a minha avó morreu”, “quando morreu a minha mulher”, “A morte dos maus pais”...), comparativamente a uma menor escolha de momentos positivos, felizes (“Brincar com os meus amigos”, referido por uma criança de 5 anos). Levanta-se então a questão se, e, porque é que, à medida que vamos crescendo e envelhecendo, somos mais marcados por acontecimentos tristes, do que, realmente, por acontecimentos felizes?
Porém, a felicidade no mundo parece ser, efetivamente, o desejo major de todos, independentemente da faixa etária. A última questão veio demonstrar isso mesmo. Quando inquiridos sobre a possibilidade de mudar algo no mundo, as respostas aproximam-se novamente, derrubando as barreiras geracionais no sentido de procurar, uniformemente, extinguir a guerra, a pobreza, as desigualdades e a solidão e promover o amor.
Como seres humanos que somos, nascemos com um pensamento quase irracional. São as experiências dos sentidos, aquilo que vemos, aquilo que ouvimos e aquilo que sentimos que nos permitem, progressivamente, passar à racionalidade, criar opiniões, tomar posições, definir ambições e reconhecer desambições. Com o passar do tempo, adquirimos o pensamento abstrato, o pensar para além daquilo que conseguimos apenas observar, adquirimos o imaginar, o moldar das ideias de acordo com as experiências vividas, com as tristezas e alegrias sentidas e as pessoas conhecidas. Por um lado, é este pensamento, simultaneamente racional e abstrato, que nos distingue enquanto indivíduos, que nos leva a agir de forma singular e faz, cada um, viver a vida de forma distinta. Por outro lado, é exatamente este pensamento que nos une também, que nos permite investir em causas comuns, que nos permite amar, que nos permite partilhar e que nos permite evoluir enquanto seres sociais que somos, intrinsecamente.
Nunca nos esqueçamos, por isso, da importância da ingenuidade do pensamento de uma criança, da inquietação do pensamento de um adolescente, da ambição do pensamento de um jovem-adulto, do prudente pensamento de um adulto e do vivido pensamento de um idoso. Afinal, passaremos, de uma ou de outra forma, por todos eles e é precisamente isso que nos torna humanos.
Catarina Gomes e Inês Silva
GM, 5 anos
O que é, para ti, a felicidade?
“O amor.”
Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“O Guilherme nascer.”
de que é que tens mais medo?
“Baratas.”
O que gostavas de ser quando fores mais velho?
“Construir carros, mecânico.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“Brincar com os meus amigos.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Amor. Ter mais amor no mundo.”
RD, 21 anos.
O que é, para ti, a felicidade?
“A felicidade para mim é obter motivação a todos os níveis, e basicamente cumprires todos os teus objetivos e teres saúde e família.”
Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“Quando tirei a carta e o inspetor disse que passei.”
de que é que tens mais medo?
“Perder os meus pais.”
O que gostavas de ser quando fores mais velho?
“Ser feliz.”
Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?
“Não teria gasto tanto dinheiro em coisas que gastei, gastava noutras coisas.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“Quando a minha avó morreu.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Abolia o dinheiro, ou pelo menos a forma como o dinheiro funciona no mundo.”
FS, 35 anos
O que é, para ti, a felicidade?
“Para mim a felicidade é estar junto daqueles que mais amamos”
Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“O momento mais feliz da minha vida foi o nascimento dos meus filhos.”
De que é que tens mais medo
“O que eu mais tenho medo é perder aqueles que eu mais amo.”
Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?
“Se pudesse voltar atrás ou mudar alguma das coisas que fiz quando era mais nova, se calhar tinha optado por aceitar o trabalho em Lisboa.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“O momento mais marcante para mim, bom, foi, realmente, o nascimento dos meus filhos e o momento mais marcante para mim, mau, foi quando a minha avó faleceu.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Se eu pudesse mudar alguma coisa no mundo era no sentido de tentar que houvesse menos desigualdades entre as pessoas e que houvesse mais amor entre toda a gente.”
FS, 83 anos
O que é, para ti, a felicidade?
“A felicidade? é viver bem, por exemplo”
Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“Acho que foi quando eu casei”
De que é que tens mais medo
“Andar de noite.”
Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?
“Tudo. Fazia quase tudo diferente. Tudo que entendi que fiz bem, agora não fazia”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“Mau foi quando morreu a minha mulher”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Se possível, por toda a gente feliz”
CQ, 10 anos
O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“O momento mais feliz na minha vida foi quando recebi um novo animal de estimação.”
De que é que tens mais medo?
“O meu maior medo é perder a minha família toda.”
O que gostavas de ser quando fosses mais velha?
“Médica.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“Foi quando a minha avó morreu.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Se eu pudesse mudar alguma coisa no mundo seria a guerra e a pobreza.”
TQ, 15 anos
O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“A felicidade é o bem estar da família. O momento mais feliz da minha vida
foi quando a minha irmã nasceu.”
De que é que tens mais medo?
“O que tenho mais medo é perder alguém importante.”
O que gostavas de ser quando fosses mais velho? Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?
“Gostava de ser jogador de futebol. Arrependo-me de ter passado demasiado tempo a jogar quando poderia estar com a família.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“O momento mais marcante da minha vida foi quando soube que ia ter uma irmã.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“O que mudaria no mundo é a guerra.”
AA, 23 anos
O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“Um sentimento. Não sei qual foi.”
De que é que tens mais medo?
“Ver os outros morrer e não poder fazer nada.”
O que gostavas de ser quando fosses mais velho? Mudavas alguma coisa se fosses mais novo?
“Teria escolhido arquitetura ou teria ido para o serviço militar.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“Sem resposta.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Teria impedido o socialismo de ter chegado à Venezuela. Aliás, eliminava o socialismo da face da terra.”
JM, 81 anos
O que é para si a felicidade? Qual foi para si o momento mais feliz da sua vida?
“Para mim a felicidade é viver bem, feliz. O meu casamento.”
De que é que tem mais medo?
“Das doenças.”
Mudava alguma coisa se fosse mais nova?
“ Não mudava. Estou feliz.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para si?
“A morte dos maus pais. É um momento triste da vida.”
Se pudesse mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Vir a paz para o mundo.”
CQ, 51 anos
O que é para ti a felicidade? Qual foi para ti o momento mais feliz da tua vida?
“Estar descontraída e sem preocupação. Não consigo definir, há vários. Neste caso posso apontar que foi o nascimento dos sobrinhos como não tenho filhos mas há vários.”
De que é que tem mais medo?
“Neste momento, perder os meus pais.”
Mudavas alguma coisa se fosses mais nova?
“Mudava, tinha arriscado mais. Um dos exemplos seria ter ido trabalhar para o estrangeiro.”
Qual foi o momento mais marcante (no bom ou mau sentido) para ti?
“O nascimento da Beatriz.”
Se pudesses mudar alguma coisa no mundo, o que seria?
“Tentava que as pessoas idosas tivessem mais apoio, que não houvesse tanta solidão.”


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