Em Novembro, até os santos dançam… - Fusão

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Em Novembro, até os santos dançam…

 


Pois é, não são só os santos populares que dançam… Aparentemente, os santos que estão no aclamado céu das almas também dançam connosco uma vez por ano. Mas será que esta dança é recebida pelas pessoas da mesma forma em todo o mundo? Decidimos analisar as tradições e costumes associados a esta celebração, não só no nosso Portugal, bem como um pouco pelo mundo mexicano e japonês.

Portugal, o país dos 4 F's: Fado, Futebol, Fátima e Finados. E a verdade é que o bom povo português enche uma casa de fados, um estádio em dia de jogo, uma missa em Fátima e um cemitério no dia 2 de novembro, o Dia dos Finados. No nosso país, esta prática implica que uma pessoa se desloque ao cemitério da sua terra natal e enfeite a campa do seu antepassado querido com flores discretas e sóbrias, invariavelmente brancas com um verde a acompanhar, e uma vela a dizer “pessoa X, deixaste o meu coração repleto de boas recordações e grande saudade”. Este dia implica uma mobilização de várias pessoas: as deslocadas que regressam à terra natal, as conterrâneas, as floristas e as vendedoras de velas, os padres responsáveis por celebrar a missa, os acólitos e, até, os próprios mortos. Será que nos conseguem ouvir de lá do alto infinito? Será que recebem de braços abertos os nossos desabafos, será que acompanham as nossas alegrias? Será que só nos ouvem no dia 2 de novembro? Para estas perguntas, não há respostas. 

No entanto, podemos sempre escrutinar as nossas próprias tradições: o perpetuar deste ritual ao longo dos anos teve, com certeza, espaço para mudanças. A verdade é que já não associamos o cemitério somente a um lugar de medo que torna presente a inevitabilidade da morte, mas também a esperança, a expectativa sobre o que nos reserva o futuro, inspiração para mudar certos aspetos da nossa vida e até felicidade de reunião com os antepassados. O sentido de dever de prestar homenagem neste dia em específico para com “os nossos mortos” e de abandonar mundos e fundos é, muitas vezes, uma ideia controversa. A verdade é que o processo de luto é contínuo, distribuído pelo tempo e espaço, não existindo um lugar ou momento específico que o faça desaparecer. Por isso, lembrem-se que também é válido não cumprir escrupulosamente esta tradição, e criar as nossas próprias.

Viajando, agora, para o outro lado do planeta, as tradições japonesas são um quanto diferentes do que estamos habituados: o povo japonês não festeja o Dia dos Mortos ou o Halloween, mas sim o Obon ou “Festival das Lanternas”. Resumidamente, o Obon, uma das mais importantes festividades religiosas do Japão, ocorre no mês de agosto (entre o décimo terceiro e décimo quinto dia), no qual as famílias se reúnem após o sol se pôr celebrando os seus antepassados e o dom da vida. Durante esses 3 dias, são realizadas diversas celebrações, como o lançamento de lanternas de papel ao rio, a preparação de altares com oferendas (com frutas, doces, incenso e flores), danças tradicionais, entre outras… É fascinante perceber o quão distintas são as tradições deste povo tão longínquo, mas que na sua essência celebra o mesmo que nós, os seus ancestrais e as suas memórias.

Ora no México, não existe a palavra "finados", pelo que se vive o "Día de los Muertos", uma celebração emblemática que ocorre anualmente também no dia 2 de novembro. E não se trata de mais uma visita ao cemitério ou um hiato de silêncio, que, vamos ser honestos, ninguém cumpre, porque toda a família tem o seu "grilo falante", mas sim de uma celebração "arco-íris" que mistura tradições pré-hispânicas com o cristianismo introduzido pelos colonizadores espanhóis.

O ambiente em homenagem aos "difuntos" é tudo menos mórbido ou depressivo, e não se foca na perda, mas na celebração dos finados. E, assim como em Portugal, onde há a mobilização de floristas, vendedores de velas e padres, o México faz a sua própria edição "à la mexicana". Em vez de padres e acólitos, traz: artesãos e escultores que trocam o incenso por papel machê, criando as famosas calacas -  esqueletos bem-humorados, vestidos de forma extravagante, que desdramatizam a morte; os confeiteiros entram em cena, confecionando caveiras de açúcar, personalizadas com o nome dos mortos, para serem oferecidas às crianças e como parte das oferendas nos altares; e traz floristas que preparam crisântemos, girassóis e rosas, que são como uma banda de mariachi, cheios de cor e alegria, contrastando com Portugal, onde as flores só lembram uma serenata; e, por fim, decoradores que arquitetam arcos conhecidos como os portais dos mortos, por onde as almas podem visitar o mundo dos vivos.

Importa, ainda,  mencionar o "altar de muertos" , tão icónico e visível no filme “Coco”, que educou gerações sobre essa tradição. Este altar é composto por até sete níveis com significados espirituais, incluindo uma cruz, fotografias dos falecidos e respetivas comidas favoritas, pan de muerto, sal para purificação, e a imagem do santo da família; e, por fim, La Catrina, conseguida como uma crítica social, que representa a igualdade diante da morte: ricos ou pobres, têm todos o mesmo destino.

Agora, que já é dia 4 de novembro e aquele familiar que nos acompanha ao cemitério já não está a dar o seu parecer, talvez seja a hora perfeita para ficarmos introspetivos com esta avalanche de informações. Será que os astecas e outras culturas pré-hispânicas tinham uma abordagem mais saudável à morte? Ou será que estamos a perder um pouco da profundidade espiritual que é essencial para refletir sobre a vida e a morte? No final, quem sabe se o melhor não é termos uma mixórdia das quatro tradições: o melhor do Japão, o melhor do México, o melhor de Portugal e, claro, o melhor dos mortos! Afinal, o que é que os santos mortos prefeririam? Uma dança de lanternas, uma maratona de salsa ou um bom fadinho?

 

Catarina Silva

Inês Lima

Filipe Gaspar



Referências:

https://ensinarhistoria.com.br/dia-de-los-muertos-mexico/ 

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Obon

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