Pois é, não são só os santos populares que dançam… Aparentemente,
os santos que estão no aclamado céu das almas também dançam connosco uma vez
por ano. Mas será que esta dança é recebida pelas pessoas da mesma forma em
todo o mundo? Decidimos analisar as tradições e costumes associados a esta
celebração, não só no nosso Portugal, bem como um pouco pelo mundo mexicano e
japonês.
Portugal, o país dos 4 F's: Fado, Futebol, Fátima e Finados. E a
verdade é que o bom povo português enche uma casa de fados, um estádio em dia
de jogo, uma missa em Fátima e um cemitério no dia 2 de novembro, o Dia dos
Finados. No nosso país, esta prática implica que uma pessoa se desloque ao
cemitério da sua terra natal e enfeite a campa do seu antepassado querido com
flores discretas e sóbrias, invariavelmente brancas com um verde a acompanhar,
e uma vela a dizer “pessoa X, deixaste o meu coração repleto de boas
recordações e grande saudade”. Este dia implica uma mobilização de várias
pessoas: as deslocadas que regressam à terra natal, as conterrâneas, as
floristas e as vendedoras de velas, os padres responsáveis por celebrar a
missa, os acólitos e, até, os próprios mortos. Será que nos conseguem ouvir de
lá do alto infinito? Será que recebem de braços abertos os nossos desabafos,
será que acompanham as nossas alegrias? Será que só nos ouvem no dia 2 de
novembro? Para estas perguntas, não há respostas.
No entanto, podemos sempre escrutinar as nossas próprias tradições: o
perpetuar deste ritual ao longo dos anos teve, com certeza, espaço para
mudanças. A verdade é que já não associamos o cemitério somente a um lugar de
medo que torna presente a inevitabilidade da morte, mas também a esperança, a
expectativa sobre o que nos reserva o futuro, inspiração para mudar certos
aspetos da nossa vida e até felicidade de reunião com os antepassados. O
sentido de dever de prestar homenagem neste dia em específico para com “os
nossos mortos” e de abandonar mundos e fundos é, muitas vezes, uma ideia
controversa. A verdade é que o processo de luto é contínuo, distribuído pelo
tempo e espaço, não existindo um lugar ou momento específico que o faça
desaparecer. Por isso, lembrem-se que também é válido não cumprir
escrupulosamente esta tradição, e criar as nossas próprias.
Viajando, agora, para o outro lado do planeta, as tradições japonesas são
um quanto diferentes do que estamos habituados: o povo japonês não festeja o
Dia dos Mortos ou o Halloween, mas sim o Obon ou “Festival das Lanternas”.
Resumidamente, o Obon, uma das mais importantes festividades religiosas do
Japão, ocorre no mês de agosto (entre o décimo terceiro e décimo quinto dia),
no qual as famílias se reúnem após o sol se pôr celebrando os seus antepassados
e o dom da vida. Durante esses 3 dias, são realizadas diversas celebrações,
como o lançamento de lanternas de papel ao rio, a preparação de altares com
oferendas (com frutas, doces, incenso e flores), danças tradicionais, entre
outras… É fascinante perceber o quão distintas são as tradições deste povo tão longínquo,
mas que na sua essência celebra o mesmo que nós, os seus ancestrais e as suas
memórias.
Ora no México, não existe a palavra "finados", pelo que se vive
o "Día de los Muertos", uma celebração emblemática que ocorre
anualmente também no dia 2 de novembro. E não se trata de mais uma visita ao
cemitério ou um hiato de silêncio, que, vamos ser honestos, ninguém cumpre,
porque toda a família tem o seu "grilo falante", mas sim de uma
celebração "arco-íris" que mistura tradições pré-hispânicas com o
cristianismo introduzido pelos colonizadores espanhóis.
O ambiente em homenagem aos "difuntos" é tudo menos mórbido ou
depressivo, e não se foca na perda, mas na celebração dos finados. E, assim
como em Portugal, onde há a mobilização de floristas, vendedores de velas e
padres, o México faz a sua própria edição "à la mexicana". Em vez de
padres e acólitos, traz: artesãos e escultores que trocam o incenso por papel
machê, criando as famosas calacas - esqueletos bem-humorados, vestidos de
forma extravagante, que desdramatizam a morte; os confeiteiros entram em cena,
confecionando caveiras de açúcar, personalizadas com o nome dos mortos, para
serem oferecidas às crianças e como parte das oferendas nos altares; e traz
floristas que preparam crisântemos, girassóis e rosas, que são como uma banda
de mariachi, cheios de cor e alegria, contrastando com Portugal, onde as flores
só lembram uma serenata; e, por fim, decoradores que arquitetam arcos
conhecidos como os portais dos mortos, por onde as almas podem visitar o mundo
dos vivos.
Importa, ainda, mencionar o "altar de muertos" , tão
icónico e visível no filme “Coco”, que educou gerações sobre essa tradição.
Este altar é composto por até sete níveis com significados espirituais,
incluindo uma cruz, fotografias dos falecidos e respetivas comidas favoritas,
pan de muerto, sal para purificação, e a imagem do santo da família; e, por
fim, La Catrina, conseguida como uma crítica social, que representa a igualdade
diante da morte: ricos ou pobres, têm todos o mesmo destino.
Agora, que já é dia 4 de novembro e aquele familiar que nos acompanha ao
cemitério já não está a dar o seu parecer, talvez seja a hora perfeita para
ficarmos introspetivos com esta avalanche de informações. Será que os astecas e
outras culturas pré-hispânicas tinham uma abordagem mais saudável à morte? Ou
será que estamos a perder um pouco da profundidade espiritual que é essencial
para refletir sobre a vida e a morte? No final, quem sabe se o melhor não é
termos uma mixórdia das quatro tradições: o melhor do Japão, o melhor do
México, o melhor de Portugal e, claro, o melhor dos mortos! Afinal, o que é que
os santos mortos prefeririam? Uma dança de lanternas, uma maratona de salsa ou
um bom fadinho?
Catarina Silva
Inês Lima
Filipe Gaspar
Referências:
https://ensinarhistoria.com.br/dia-de-los-muertos-mexico/

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