Um caos modernizado
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Um caos modernizado
julho 23, 2026
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Neste verão chegaram temperaturas sufocantes por toda a Europa, mas, de certo, que Portugal tinha de se destacar comparativamente aos restantes países europeus, uma vez que o calor não foi o único a proporcionar um sufoco nunca antes visto.
A época de exames é uma altura stressante: notas por todos os lados de matérias que já nem tocávamos há um ano e exercícios atrás de exercícios na tentativa de “limpar todos os exames” na plataforma do IAVE (Rest in peace). A nossa vida é decidida por uns momentos à frente de folhas de papel que nos faziam decorar até a validade do nosso cartão de cidadão e de uma artilharia de material, como canetas, lápis e borrachas que se faziam acompanhar por réplicas, porque “vai que a caneta falha no meio do exame”. No entanto, maior é a pressão para quem ainda tem exames cuja nota não foi atingida na primeira vez que os fez ou que pretende anular disciplinas. Mas, para isso, não se preocupem que o EduQa está aqui para vos ajudar (supostamente). Comecemos, então, pela mudança das folhas de resposta anunciada no mês de maio! Aparentemente linhas já eram demasiado démodé para um país que se quer modernizar (mas que fica sempre no querer por incrível que pareça). Por um lado, implantamos o sistema Volta para aumentar a reciclagem de garrafas, por outro, podemos claramente usar despropositadamente mais folhas do que habitual com respostas repartidas (ou “de continuação” para ser mais chique).
Isto tudo para, no final, alunos perderem mais tempo a pintar bolinhas do que propriamente a responder às perguntas com potencial de anulação como foi suspeitado que se faria com o texto de português que se assemelhava a um de um livro de exercícios.
Já depois de todos os exames feitos podíamos lançar os foguetes, mas por causa do São João mesmo, visto que houve atrasos na digitalização das provas, elemento essencial para a correção pelo sistema implementado, deveras inovador (supostamente, outra vez). Claramente os digitalizadores também estavam fartos do trabalho a eles atribuído, uma vez que uma carreira de DJ lhes passou ao lado de tantas remixagens de prova fizeram: a Maria tem a folha de continuação do João, o Alberto a da Maria e por aí em diante. Ademais, não acredito que muitos professores vigilantes ficaram muito orgulhosos com o trabalho de certos alunos, visto que até agrafaram folhas sobre o Qr code (no lado direito do caderno) para que não fosse possível ver as respostas dadas... ou, pelo menos, foi o que o nosso Ministro da Educação decidiu dizer para justificar os atrasos.
Falando neste senhor tenho de admitir que é de se admirar como uma pessoa consegue colocar as culpas em tudo e todos, menos no único responsável por este caos. Foram os agrafos, os professores, as escolas e, daqui a pouco, até a minha gata que está a dormir descansada. E, por falar em descanso, vamos falar de quem não o teve: os verdadeiros heróis da nossa história, os professores, tanto que até quem está a descansar eternamente foi convocado. Estes sim trabalharam incansavelmente para que os alunos tivessem as notas o mais rápido possível.
Mesmo com sistemas em baixo, atrasos na receção das provas, provas trocadas, folhas a desaparecer, mesmo depois de corrigidas etc., eles perceberam a urgência e fizeram de tudo para que, no final, os exames fossem entregues.
Admitimos, no entanto, que este caos fez uma boa competição em termos de atenção e união comparativamente com o Mundial, mesmo que tenhamos perdido o Primeiro-Ministro pelo caminho que fazia questão de cumprimentar pessoalmente os jogadores portugueses na América do Norte. Mas é “imprudência” que os encarregados de educação marquem férias fora do país para uma altura que não haja exames, ou que não deveria haver, segundo o nosso Ministro da Educação depois de adiar os exames da segunda fase para mais tarde. Além disso, mesmo com
essa alteração, foi tudo tão bem organizado que houve alunos a ter dois exames que precisavam de fazer no mesmo dia, à mesma hora.
Agora que acalmou este caos, podemos começar um novo, por que não? Notas saem; promessas que sexta-feira será o dia, até que... não é. Outra vez têm os heróis da nossa história que fazer o trabalho extra (não remunerado, claro, porque este país anda à base de promessas e rezas) de ficar o fim de semana com os administrativos a afixá-las, para que estivessem disponíveis na segunda-feira seguinte. E, mesmo depois de tudo, conseguimos arranjar o laço perfeito para amarrar este presente: alunos olham para as suas notas e elas não existem. Mas não se esqueçam: têm dois dias para pensar se querem ir à segunda fase! Assinado: Fernando Alexandre, Ministro da Educação.
Brincadeiras à parte, isto foi uma excelente demonstração de como um dos pilares principais de um país, a educação, pode ser erodido por pura negligência. A muitos isto não afetará: estamos na universidade, a maioria de nós não tem filhos, já passamos desta fase. Mas mesmo sendo filhos de comentadores de sofás, não havíamos de ignorar uma coisa tão importante, pois toda uma geração de futuros estudantes está a ser afetada a troco de incompetência de quem devia zelar por nós. Contudo, espero, ao menos, que retirem o pagamento de vinte e cinco euros da reapreciação dos exames, uma vez que é inevitável que as pessoas não desconfiem que as coisas estejam mal corrigidas (mesmo que apelar por bom senso seja uma tarefa árdua). Assim, questiono: será que é assim tão importante “modernizar” estes processos? Talvez sim, mas não é escolhendo um método que já se tinha provado ineficaz ao corrigir a prova de filosofia do ano passado e que não tem as escolas preparadas para a sua implementação.
Concluo, assim, com um agradecimento aos nossos verdadeiros salvadores da pátria: a comunidade educativa que fez das tripas coração para que os sonhos dos nossos futuros caloirinhos fossem realizados. No entanto, também deixo uma nota de repúdio à negligência deste governo face esta crise, em especial, ao Ministro da Educação, Fernando Alexandre. Já houve ministros despedidos por muito menos!
Vemo-nos na segunda fase!
Tiago Gens
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