Fingir - Fusão

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Fingir


Estamos rodeados de informação. Para qualquer lugar que olhemos, informação invade e preenche a nossa cabeça: publicidade, notícias, avisos... Mas como sabemos o que é verdade e o que é importante? Infelizmente, não sabemos, porque quem apresenta essa informação é um fingidor. Já Fernando Pessoa escrevia que o poeta é um fingidor, mas podia ter ido mais longe, porque a realidade é que o Homem vive mais de metade do seu tempo a fingir. Mas o que é que o Homem finge e porquê? 

Fingir, segundo o dicionário português, é um verbo transitivo regular que significa inventar, fantasiar. O ser humano sempre foi um sonhador, apreciador de fantasia. Somos poetas, atores, escritores - imaginarmo-nos outras pessoas noutros locais é uma arte e uma maneira simples de fugir da realidade por meros momentos, mas, ao longo dos tempos, o Homem aperfeiçoou a arte do fingimento, aplicando-a ao seu dia a dia. Resta questionar o que é que isto traz para o indivíduo, e com esta questão encontrei várias respostas. 

Primeiro, o poder. O Homem é movido, muitas vezes, pela ideia de poder fundida na nossa História, nas guerras e batalhas perdidas. Atualmente, o Homem finge para obter a sensação de poder sobre os outros, para avançar na carreira, para ser apreciado. É um fingimento perigoso e que afeta todo o mundo, mas não considero que seja o mais perigoso de todos. Com isto, obviamente, surge a questão de como é que algo tão simples como fingir pode ser perigoso? Mas, afinal, quem é que nunca fingiu uma emoção? Quem é que nunca fingiu ser alguém diferente para se enquadrar? Até que ponto a pessoa que finge o consegue fazer sem se sentir uma farsa?

Em segundo lugar, é muito mais fácil aceitar uma felicidade fingida do que olhar mais fundo e encontrar um lugar escuro que precisa de ser iluminado. Muitos de nós sabemos que uma vítima de suicídio é geralmente alguém que ninguém esperava, isto porque “People don't fake depression, they fake being okay” — Abhysheq Shukla. Mas como é que os mais próximos não se apercebem e não distinguem os dois tipos de alegria? A questão que colocam normalmente nestas situações fixa-se na necessidade que estas pessoas sentem de fingir, esquecendo que é a sociedade que fomenta e
ssa necessidade. Afinal, quem quer ser amigo de uma pessoa triste? Quem quer trabalhar com uma pessoa desmotivada? Quem quer apreciar a natureza com alguém que não consegue ver as suas cores? Assim, a pessoa finge estar feliz, finge motivação e finge conseguir ver as cores do mundo. 

No entanto, ninguém consegue fingir para sempre: os políticos são apanhados nas mentiras, os soldados que lutam nas guerras perdidas começam a questionar o motivo pelo qual o fazem, o fingimento nas redes sociais é questionado pela realidade e deixa de ser possível fingir que se vê as cores, porque vermelho não é azul e nunca o será. E, quando a cortina cai, desmontam-se impérios, caem governos e saltam as pessoas para o esquecimento na tentativa de fugir ao fingimento. Por isso, quando olharem  à vossa volta, questionem-se sobre quem fez a publicidade, questionem por que é que o político quer aquela lei aprovada e, sobretudo, questionem se a pessoa ao vosso lado sorri porque é capaz de admirar a paleta da natureza ou porque não quer que as pessoas vejam o preto monótono da sua alma. 

Sara Castro


2 comentários: