Ansiedade: Procurar ajuda é o início da solução! - Entrevista à Dra. Ana Paula Vaz - Fusão

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Ansiedade: Procurar ajuda é o início da solução! - Entrevista à Dra. Ana Paula Vaz



Dra. Ana Paula Vaz é psicóloga clínica e da saúde, sendo membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses há 27 anos e possuindo diversas especialidades reconhecidas pela mesma como a Neuropsicologia, Psicologia Comunitária e Psicogerontologia. A sua intervenção clínica é transversal ao longo de todo o ciclo de vida, desde crianças, adultos e idosos, promovendo a estimulação cognitiva para treino cognitivo e reabilitativo.


O que é a ansiedade? Quais os sintomas que a caracterizam?

A questão pandémica veio trazer à discussão a importância da saúde mental em que a ansiedade foi e continua a ser um quadro clínico com uma expressão muito grande, tanto em jovens como em adultos.

A ansiedade é naturalmente algo bom, é uma emoção que, na sua condição natural, tem por objetivo dar alento à vida. O problema surge quando esta se instala de forma intensa e recorrente na vida do indivíduo e este deixa de ter capacidade para lidar com aquilo que a ansiedade lhe causa. Entramos numa condição em que a ansiedade é um problema e se torna num quadro clínico que necessita de uma intervenção específica.

Enquanto resposta humana a dificuldades e problemas, a ansiedade tem manifestações diferentes. De modo geral, está carregada de sintomas físicos e emocionais, associada com comportamentos mal adaptativos e um quadro cognitivo que perpetua o próprio ciclo da ansiedade. Sintomas físicos incluem taquicardia, suores, tremores, tonturas, náuseas e/ou dores musculares que são despistados clinicamente porque podem decorrer de alguma patologia física.

Os sintomas emocionais estão relacionados com a manifestação emocional mais negativa, ou seja, percebemos que o medo está maioritariamente associado à ansiedade, aquele que se está a viver, o medo pelo que se desconhece ou por voltar a viver aquilo que já se viveu. Muitas vezes associados à ansiedade, temos também os estados depressivos – a tristeza instala-se pela dificuldade percebida em lidar com este círculo vicioso de sintomas e comportamentos negativos.

Podemos dizer que é fundamental procurar ajuda quando a pessoa sente que não é capaz de se adaptar ao novo quadro clínico de ansiedade?

É sempre desejável que nós sejamos capazes de lidar – e lidar nem sempre significa adaptar. Não é desejável que aceitemos como natural um conjunto de sintomas persistentes e recorrentes. É desejável, sim, que nos adaptemos a situações que, pela sua especificidade inerente, nos causa um pico de ansiedade, mas que depois saibamos retomar um estado anterior favorável.

Se percebermos que já não estamos a conseguir lidar, isto é, aquilo que estamos a viver é extremamente invalidante, ou seja, começa a interferir com o nosso bem-estar emocional, é fundamental procurar ajuda. Procurar ajuda é o início da solução! Não há mudança se nós não assumirmos que precisamos. 

Existem certos tipos de personalidade que são predispostos para desenvolver ansiedade. Quais são?

Existem efetivamente alguns critérios que podem conduzir a que a pessoa experiencie mais ansiedade perante certos acontecimentos de vida. Pessoas com sentimento elevado e crença de necessidade de controlo das coisas. No entanto, não é completamento válido assumir que está apenas associado a isso ou que há maior predisposição em relação a questões de personalidade.

Todo um sistema de atribuição e valorização daquilo que nos acontece é condição para nos tornar mais vulneráveis à ansiedade nociva.  

Dicas práticas para lidar com a ansiedade do dia-a-dia?

A prática de atividade física estabelece um conjunto de ações importantes, não só para o corpo, como também permite a manifestação de prazer e bem-estar, restaurando a capacidade de nos ligarmos com o que está fora do nosso alcance e restabelecendo uma boa circulação sanguínea e a manutenção de um ritmo cardíaco mais tranquilo. No fundo, permite transmitir um sentimento de poder e de autocontrolo, a quem, em estados de ansiedade, está frequentemente a sentir que não tem esse mesmo poder.

Fundamental também, é respeitar os nossos ciclos naturais, como o próprio sono. Aí, penso que as pessoas em geral, no mundo atual, têm falhado continuamente, porque acabam por se deitar mais tarde, sempre de volta de monitores, redes sociais, muitos estímulos para um cérebro que precisa da oportunidade de funcionar como é esperado e naturalmente, de uma forma cíclica. Nos casos de ansiedade, isso acontece muito. Efetivamente, há uma alteração significativa desse ritmo biológico do sono, as pessoas têm mais dificuldade em adormecer, experienciam a interrupção do sono ou este não é reparador.

Depois, existem ainda algumas práticas de autocuidado relacionadas com atividades gratificantes, ou seja, o que é que cada um de nós gosta de fazer no seu dia-a-dia, ou gostaria de fazer no seu dia-a-dia, e que não costuma ter muito tempo, ou então tem tempo, mas as opções vão recair sobre coisas que nos fazem perder tempo. Então, as atividades gratificantes são múltiplas e diferentes de pessoa para pessoa - para algumas pessoas pode ser ouvir música, para outras ler, cozinhar, relaxar, praticar meditação, passear na natureza, nadar - ou seja, um conjunto de atividades gratificantes que permitem à pessoa dedicar-se a si própria, de forma a sentir que tem um controlo da sua vida, e que tem momentos que são apenas seus, em que podem estar, sentir e experienciar coisas boas a partir daquilo que identificam como algo positivo.

E aí também surge a importância da boa gestão do tempo porque, por vezes, as pessoas perdem imenso tempo em algo que não é tão útil e não têm tempo para fazer aquilo que realmente gostam.

Sim, a boa gestão do tempo é também uma prática importante, e está associada à organização e à autodisciplina, e com frequência as pessoas tendem a desperdiçar tempo. Qualquer um de nós tem a consciência de que em pouco tempo, conseguiríamos fazer muito mais do que aquilo que muitas vezes fazemos, porque fazemos sempre o mesmo, sempre da mesma forma. Efetivamente, é importante que as pessoas procurem ser mais autodisciplinadas, o que não significa que exista um rigor onde não haja espaço para fazerem algo que lhes seja agradável. Muitas vezes, quando eu falo em autodisciplina, quase que é motivo para as pessoas pensarem logo em regra ou rotina. Esta autodisciplina é definida pela própria pessoa, no sentido de “como é que eu vou gerir o meu tempo, entre obrigações, responsabilidades, e aquilo que sobra e que eu poderia tentar aproveitar em benefício próprio”.
 
Como podemos ajudar alguém que esteja a ter uma crise de ansiedade?

Bem, vou aproveitar esta questão ainda para adicionar outra dica prática, que tem a ver precisamente com a existência de alguém que nos transmite segurança, um amigo ou um familiar, alguém próximo, com quem temos confiança para fazer alguma partilha. Efetivamente, é uma boa prática também para aliviar estados de ansiedade.

Neste sentido, quando alguém está a viver uma ansiedade intensa, é importante tentar passar a mensagem de que está tudo bem, de que aquela visão catastrófica do momento é irracional, e não terá aquele impacto tão negativo como a pessoa está a viver, que estamos ali para apoiar e para escutar, se a pessoa precisar. Contudo, também são fundamentais a consciência e a clareza para quem escuta, de que por vezes não está ao seu alcance poder dar o contributo necessário. Então, depois de escutarmos a pessoa, e de termos essa atitude compassiva relativamente a ela, é muito importante ainda, alertar a pessoa para a importância de procurar ajuda, e tentar, na dificuldade e na recorrência da situação, tentar efetivamente uma ajuda profissional orientada para os seus sintomas, para a procura dos motivos e das causas pelos quais a pessoa está a experienciar esse estado de ansiedade, e desenvolver um trabalho que integre um conjunto de técnicas cientificamente estabelecidas e suportadas também na evidência cientifica.

Numa crise de ansiedade, a visão da pessoa é sempre importante, sendo necessário compreender que imagem é que está a ter, daquilo que está a acontecer, em relação a acontecimentos da vida própria. Ou seja, que compreensão e interpretação está a fazer. A maioria das vezes, e mesmo sem ter uma interpretação específica, alguém de fora consegue compreender que a visão é exagerada em relação àquilo que está a suceder, e é esse exagero que precisa de ser reposto, favorecendo o equilíbrio, e a forma como depois se lida com a mesma situação. Portanto, deve-se tentar dialogar, conhecer a sua interpretação das situações, tentar conhecer como a pessoa se visualiza na sua capacidade de lidar ou não com as situações, se é algo que está a acontecer há muito tempo, se é uma situação mais recente. E à luz disto, os sintomas muitas vezes abrandam, os emocionais e físicos, porque a pessoa tem oportunidade de partilhar, tem oportunidade de falar sobre aquilo que está a comprometer o seu bem-estar, o que pode ser uma boa ajuda, permitir que a pessoa se liberte do que está a ser intenso e que a está a angustiar naquele momento.
 
Atualmente, existe ainda preconceito por parte da sociedade em relação às doenças mentais, o que leva muitas vezes a adiar a procura de ajuda. Como podemos contribuir para um melhor acesso a cuidados de saúde mental?

Efetivamente, a par daquilo que é a visão da própria pessoa em relação à procura de ajuda, há um peso significativo sobre o que é que a família pensa sobre isso. Tenho essa experiência, por vezes, de pessoas que logo de início tendem a questionar se há mais pessoas com problemas semelhantes, ou se “há mais pessoas com o mesmo problema que eu” – esta é uma pergunta muito frequente – e, para além desta questão, a afirmação de “Eu já devia ter vindo há mais tempo, mas a minha mãe ou o meu pai, ou o meu marido ou a minha esposa…”. Ou seja, alguém que achava que poderia tentar lidar de outra forma. É também verdade que muitas vezes se recorre logo à vertente clínica, e a uma intervenção medicamentosa. No entanto, se a intervenção começasse mais precocemente, as pessoas poderiam também aprender a gerir e a lidar com a sua ansiedade, sem necessidade de recurso à medicação. A psicoterapia pode intervir isoladamente, mas também pode ser um bom suporte quando há uma intervenção medicamentosa.

O acesso aos cuidados de saúde mental, numa 1ª linha, passa, na maioria das vezes, pela ida ao médico de família, pela sintomatologia física, procurando perceber se há ou não organicidade. O médico de família também tem o papel de sinalizar para consulta de psicologia na própria unidade de saúde, se existente, ou então de fazer o encaminhamento para o hospital, para que a pessoa tenha acesso a consulta de especialidade e o acompanhamento psicológico. Infelizmente, sabemos que esta opção é demasiado morosa.

Quero ainda ressalvar esta questão: é importante procurar ajuda. As pessoas tendem a adiar, contudo a resposta física e emocional passa depois a ser complexa do ponto de vista cognitivo, afetando a forma como toda a informação é processada, interpretada e vivida dentro de cada um de nós.

Texto de Gabriela Nunes e Alice Pereira


Procurar ajuda é o início da solução!
Contacta o Gabinete de Apoio Psicológico da UBI - E-mail: gap@ubi.pt

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