Amar devagar - Sobre um concerto de Manel Cruz
Os momentos antes de um espetáculo, são dos de maior reflexão para quem visita estas curiosas salas de concertos, de dança ou teatro. Aqui, lembramo-nos de memórias, que nunca teríamos num outro local, ou num outro momento do dia. Memórias curtas e fugazes de amores ou de momentos perdidos, que surgem em nós quase como uma Borboleta – “se eu largar, eu sinto a sua falta / se eu a agarro, ela perde a sua cor”.
Talvez não nos conheçamos. Talvez sejamos eternos estranhos numa cidade perdida. Apesar dos caminhos diferentes, saberemos sempre que partilhámos uma hora das nossas vidas, tão corridas e cheias de horários e condicionalismos, a escutar reflexões e visões na forma de contrapontos e versos.
Em palco, uma guitarra espera. Ao seu lado, um baixo, uma harmónica, e a possibilidade de um cavaquinho, com uma sonoridade tão imensa.
Depois dos pensamentos correrem como chuva numa tarde de Domingo, - talvez tenha pensado naquele capítulo que ainda não estudei e que ficou esquecido em cima da mesa, ou na mera casualidade com que consegui bilhete para o vocalista de “O Monstro Precisa de Amigos”, a verdade é que já não sei - entra então, devagar, e sob a luz, a quem pede para fazer o mundo existir, Manuel Cruz. Talvez muitos não conheçam e se perguntem – Manel, mas qual Manel? Manel, o dos Ornatos Violeta, como o próprio se refere em sorridente nostalgia.
O concerto começou com o tema O Céu Aqui, como que a levantar o véu-enigma do restante reportório. Entre as canções, vão surgindo algumas reflexões, porque as palavras são teimosas, e querem sempre ser ditas e surgir no mundo das interrogações. Talvez o silêncio não seja perene ou insatisfatório. Talvez seja mesmo necessário para nos podermos encontrar no caos. E aqui, o cantautor pensa em voz alta sobre o lugar do mundo atual. Entram consigo em palco as lembranças, contadas e cantadas entre os acordes consonantes com as palavras que nos diz. Manel fala de um filme que viu em adolescente, e da atriz, que reconheceu anos mais tarde num documentário. Talvez o seu rosto envelhecido, a marcar o passar do tempo tenha causado em si desconcerto, ou talvez a interrogação de uma vida que não acompanhou, que não conheceu, mas que se cruzou com a sua por breves momentos, tenha tornado premente a composição deste seu tema, dedicado a ela, Ginger Lynn.
Temas do seu projeto Foge Foge Bandido, ou de uma outra composição, bem conhecida pelos fãs que enchem a sala de aplausos entusiastas, essa que relata as dores de um romântico incurável, fizeram-se ecoar na bonita sala do Teatro Municipal da Covilhã.
Rapidamente, corremos até ao final da noite. Podemos dizer que o tempo parou, quando se fez escutar o tema Devagar, criação dos Ornatos. Uma exaltação de um vazio, ou de uma ausência, essa, que só a música pode preencher – “Eu sei / Não vejo a luz em mim / Tão pouco em mais alguém / Só quis tocar o céu / Não quero mal a ninguém”.
O tempo passa, essa é uma das únicas certezas que alguma vez teremos. Mas talvez ali, o relógio tenha parado sobre os acordes de uma guitarra, e de uma voz que não cala o que há muito ficou por dizer. Momentos como estes são tão urgentes, momentos que nos fazem parar esta dança infinita no espaço rítmico das nossas rotinas.
Talvez vivamos numa sociedade do plástico, do descartável, do impermanente. Onde queremos (quase) tudo para o imediato, num modo automático, quase como se achássemos que a memória é eterna, e todas as músicas que ouvimos em concerto são versões repetidas dos álbuns gravados em estúdios, rádios, e cassetes-pirata.
Uma sociedade do caos ou do irremediável medo do imperfeito. Em oposição, a arte veio-nos mais uma vez dizer para pararmos, e escutarmos o que se passa à nossa volta. Para nos lembrar que, - ao contrário do que os peritos possam afirmar, - como pessoas, afinal, tão longe estamos de ser máquinas. Porque a arte, tal como o amor, prevalece sempre no caos.
Um concerto para uma sala cheia, mas tão pessoal e intimista, como se tivéssemos ido passear pela cidade, parado para um café, e ficado a ver as luzes nas Portas do Sol, à espera de um momento. Porque a música é também contadora de histórias, e deixa o final em aberto, para cada um completar, no seu retorno. No seu regresso ao imenso mundo - esse, dentro de cada um de nós.
“Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar”
Ornatos Violeta, Devagar
Por Alice M. Pereira


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