terça-feira, 1 de junho de 2021
... Que Reserva O Futuro?
Penso que é indiscutível que a inteligência artificial (IA) veio revolucionar o nosso mundo, a todos os níveis, do qual a Medicina não se exclui.
É uma evolução tecnológica capaz de feitos que nos deixam de boca aberta? Sim. É aquilo que o mundo, os médicos e os pacientes precisam? Talvez. Deixarei o leitor decidir por si.
Verdade seja dita, é um assunto demasiado complexo e a linha entre os benefícios e os malefícios é demasiado ténue. Já não é uma dúvida se a IA vai, ou não, ser cada vez mais complexa e cada vez mais próxima da inteligência humana. Já é e, cada vez mais será, parte do nosso dia a dia. As derradeiras questões são: saberemos lidar com isso? Saberemos manter o equilíbrio entre a máquina e a pessoa?
Mesmo fora do ambiente entre pares, toda a gente sabe que em Medicina é preciso uma coisa: saber, saber, saber. Um médico precisa de saber identificar sinais e sintomas, saber relacioná-los com possíveis diagnósticos e saber também como tratar o doente, consoante o diagnóstico mais provável. É um acumular de conhecimento que, com a prática, se vai tornando mais fácil. Mesmo assim, são várias as vezes, em que há algo que escapa entre as mãos.
Visto desta forma, a IA é uma ferramenta maravilhosa, que vem ajudar o médico a que não lhe escape nada sobre aqueles sintomas. É uma companheira, uma “segunda cabeça” pensante. Penso que seja pouco discutível os benefícios que isto traz para o médico. São demasiados.
Por outro lado… esta companheira tem um pequeno problema, que se pode tornar grande se o médico não estiver atento ao doente que tem à sua frente. Ela funciona por algoritmos e, por isso, não consegue ver aquele pequeno pormenor que só o olho da experiência vê. Se um doente vai à consulta com dor abdominal, a nossa companheira não vai reparar naquele sinal na pele que tem um aspeto diferente do suposto…
Para além disso, é importante refletirmos na relação médico-doente. Não é só o saber, saber, saber que importa. É também o mostrar empatia, compaixão e humanidade. Isso é o que os doentes mais levam de nós. Quantas não são as vezes que se ouve o “nunca me vou esquecer como aquele doutor me tratou bem e foi atencioso?”. Nestas situações, a nossa companheira pode atuar de duas formas: ocupando a nossa mente e fazendo-nos focar nela em vez do doente ou, por outro lado, exponenciar a relação médico-doente, ao dar mais tempo ao médico para ouvir quem tem à frente, pois tem uma boa ajudante em quem confia. De quem depende isto? Principalmente, do médico e das prioridades que este define para si.
Concluo assim, que a Inteligência Artificial é como um pau de dois bicos. Capaz de trazer excelentes benefícios, mas a Medicina não deve ser tão centrada nela ao ponto de pôr de lado o que faz de um médico, ser médico, no qual incluo a capacidade de ver o doente como um todo e não centrado na queixa. Para além disso, os médicos não se podem esquecer: o que mais importa, é a pessoa que está à nossa frente. Isso inclui, para além das queixas, os seus sentimentos, medos e a necessidade de sentirem que estão a ser ouvidos e o que o médico lhes está a dar a sua atenção.
Texto de Sara Gomes
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